Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Vida ou novela

Espantam-me as pessoas que vivem os seus dias como se de uma novela se tratasse. As que chegam ao trabalho sem querer trabalhar, vestidas para arrasar, com muitas coisas vazias para contar. Opiniões, ideias inadequadas, uma canseira permanente de uma vida superficialmente preenchida. Porque a verdade é que extraído o sumo do que de facto acontece, tudo se resume a palavras que preenchem a história de um dia onde pouco aconteceu para além do scroll up e scroll down do rato. Pouco mais aconteceu do que as histórias do facebook ou das series que alimentam os finais de dia.

Pessoas que fazem pausas sem ter feito nada. Porque o dia passa a correr. Querem uma vida de reuniões onde nem sabem o que vão debater. Entrar e sair de salas, empunhadas com os seus computadores portáteis, onde não apontaram nada, mas que valem pelo registo imediato da conversa mantida.

“Fazes tu a ata?!”

Um calafrio de horror, afinal de contas tudo o que escreveu se resume aos comentários vazios que fez no facebook das amigas.

Uma novela. Como na novela. Em que a personagem principal tem a vida preenchida de coisas imensas que se passam entre o ação e o corta. Mas que na realidade não faz nada de facto.

Afinal de contas fazer é tão mais entediante do que dizer que se fez.

São novelas.

As pessoas precisam de novelas.

Como as fotografias sobre tudo e que não dizem nada. “Para as pessoas que me conhecem o interior”. Aí o interior, tantas vezes descrito quando procuram atenção. O interior que se perde, o interior que se acha, o interior que faz a mudança, o interior que se volta a perder, o interior que nos alimenta. Às vezes já não sei se é o interior do país ou lá o que raio de interior de fala.

Textos redundantes e repescados que dizem tudo e não dizem nada. Palavras soltas que se colam umas às outras na tentativa de fazer compilações filosóficas da vida onde o interior é sempre a personagem principal, mas depois a vaidade leva a melhor porque se escolhe a melhor roupa, se garantem as unhas dos pés arranjadas.

Não há um raio de uma pessoa que se preocupe tremendamente com o interior e que tenha as unhas dos pés por pintar. É estranho.

As mensagens subentendidas que gritam um “olhem para mim. Perguntem-me. Querem saber o que se passa, não querem?!” E as alcoviteiras, aquelas que são muitas vezes alvo dos comentários de que falam nas costas, essas aparecem como o rato que pisa a ratoeira quando lhe cheira a queijo. Não resistem.

“Então, que se passa com a tua vida?”. Seguem-se respostas evasivas, porque se fosse para responder de forma direta não se tinha posto o texto que anda às voltas. Porque se fossem mesmo amigas conheciam-lhe o interior e sabiam o que aquilo significava.

Espreme-se bem o sumo e restam poucas gotas. Tudo se resume à necessidade de que algo aconteça quando a vida começa a ficar igual. Quando acordamos à mesma hora, quando a deitada é igual. Quando já jantamos de pijama e não há festas socialites para atender.

Quando não há viagens e estadas em hotéis de 5 estrelas.

Quando na verdade a profissão não é aquilo que a novela promete. Não porque seja vazio, mas porque o trabalho é entediante e ninguém explicou alguma vez que a Malu Mader tinha de se sentar ao computador, agarrada por duas horas a um ficheiro Excel. Ninguém explicou que antes de falar da reunião de que tinha acabado de sair, teve de facto de escrever o relatório com textos eloquentes que resultam de conhecimento e trabalho.

 

Lá está, se isto fosse tudo uma novela havia sempre alguma coisa a acontecer, não se conhecia o tédio e não se chegava a trabalhar.

 

O problema é que prometem a novela e depois dá-se a vida.

 

2 comentários

Comentar post