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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Uma família pouco fotogénica

Quando estava grávida fizemos uma sessão fotográfica. Nada de especial, tínhamos comprado um pacote de curso de preparação pré-parto e estava incluída uma sessão fotográfica.

Uma sala transformada em estúdio, uma iluminação pobre, uma grávida inchada e um marido que esbugalha os olhos sempre que alguém com uma máquina fotográfica diz "olhe para aqui".

Não pagámos nada pela sessão mas gastámos 80 € para receber em formato digital a meia dúzia de fotografias onde parecemos membros da família Adams...mas em creme.

Tinha pensado antes de o pequeno nascer em marcar uma sessão daquelas com o bebé ainda muito pequeno onde o metem numa cesta e em alguidares e coisas superfofas e tudo e tudo mas o homem conseguiu dissuadir-me dizendo que a melhor coisa a fazer era investir esse dinheiro numa máquina fotográfica em condições.

Ora como cabeça de grávida não é coisa em que se afiance lá acedi.

Pois que há uns valentes meses, depois de milhares de fotos tiradas por esta bela máquina e nenhuma com a família junta e em condições, decidi marcar uma sessão ao ar livre com uma fotógrafa decente.

Pessoa recomendada.

Era para Fevereiro mas por motivos de enfermidade não deu. Depois marquei para outra data e tive de desmarcar porque caía mesmo em cima do aniversário da minha sobrinha. Há umas três semanas lá nos encontrámos todos, mas estava uma ventania tal que a própria fotógrafa pediu para desmarcarmos.

Ficou para hoje.

Chegamos e lá vimos a fotógrafa a vir, gravidissima, carregada de apetrechos para a sessão.

- Vai lá ajudar a carregar aquilo, é o que mais faltava!

Podem dizer-me o que quiserem mas para mim uma grávida é uma pessoa especial que merece atenção especial e eu não gosto de esmifrar grávidas. Especialmente estas já mesmo em fim de tempo que já estão cansadas e inchadas e desejosas é que o puto salte cá para fora de uma vez por todas.

Já sei que gravidez não é doença e blá-blá-blá mas eu sou assim.

Expliquei-lhe logo que não percebíamos nada daquilo e ela que era para sermos naturais e só olhar para ela quando nos chamasse.

Um à parte. Eu sou uma pessoa que fica desconfortável em praticamente qualquer tipo de circunstância. Não gosto de incomodar, pedir, exigir. Por mim as coisas fluíam sempre de forma simples e sem grandes berbicachos. 

Chegámos ao primeiro local.

A grávida começa a pôr uma manta no chão e o puto a correr em direção contrária. Eu a perceber como é que a coisa se ia dar.

Plena agitação.

Uma confusão. O pai a chamar de um lado, eu de outro, a fotógrafa de outro. Brincadeira aqui, sorriso ali, toma lá uma seta, agora vamos ver se senta no cavalinho de madeira, olha aqui, olha ali, olha não sei onde.

Ao fim de vinte minutos estava cansada e capaz de me ir mas era embora. Mas fiquei e sorri. Sou adulta e ainda vou tentando manter a compostura. O puto que ainda não tem filtros levou a cabo os meus pensamentos e assim que se viu livre de amarras braçais vai de correr em sentido contrário.

Não sei bem do que é que eu estava à espera, mas acho que era de uma coisa mais melosa. Num só sitio, dois vá. Nós a brincar com tempo e paciência e a fotógrafa a tirar fotografias (desculpem lá a redundância). Sem estar sempre a receber direções. Sem aquela agitação do tirarmos dez fotos aqui e depois vamos a outro sitio e depois outro e mais outro.

A nossa falta de jeito e falta de à vontade a vir ao de cima, eu sempre com as costas meio curvadas e os ombros encolhidos por causa das brisa que soprava, o homem a esbugalhar os olhos e o miúdo a debater-se no colo de ambos. A esbracejar. Parecia que o tínhamos raptado e estava a tentar voltar para a família verdadeira.

A melhor parte foi quando arrancou em direção à mala da fotógrafa para lhe fanar o telemóvel. Qual maquina fotográfica de madeira, este menino é só material digital verdadeiro e com touch screen.

Acabámos por chegar a um pequeno parque infantil. Ficou todo contente porque havia areia e pedrinhas para brincar.

O miúdo não passa cavaco a baloiços, nem a escorregas nem nada dessas coisas. Gosta de brincar com a pá de praia e o ancinho na areia.

E depois?

Ao fim de 5 ou 10 minutos sem querer andar no escorrega "é melhor irmos para outro sitio". O puto quando lhe pegámos para ir embora desata num pranto.

Com razão.

O dia estava lindo, o parque era diferente do que vai todos os dias com os avós, e andávamos nós ali a stressar e a toque de caixa sem que ele pudesse brincar.

Estava o pai à minha frente com ele ao colo. A soluçar e com as lágrimas grossas a correr-lhe pelo rosto.

- Não.

- O quê?

- Não. Vamos voltar com ele para o parque. Isto é para ele se divertir, não para ser um castigo. Está há mais de meia hora a saltar de sitio em sitio sem poder brincar. Vamos voltar para o parque. Já chega. Temos fotografias que cheguem. Pagamos já.

- Não, não. Então voltamos para o parque e tentamos tirar lá umas fotos.

Uma situação complicada para mim. Por mim tinha pago logo. Um de nós tinha ido ajudar a moça a levar as coisas até ao carro e estava bom. Fico a sentir-me mal porque porventura devia ter sido uma sessão menos demorada e assim foi mais tempo, porque voltámos para o parque e lá se tentou tirar mais fotos com ele onde ele gosta de estar e com o que ele verdadeiramente gosta de fazer.

Não queria fotografias de faz de conta. Queria apenas que alguém que sabe manusear uma máquina como deve de ser nos tirasse umas fotografias bonitas naquilo que somos de verdade.

Sei bem que há quem pense que só lhes faz bem chorar de vez em quando e que não podem levar a deles sempre avante e que é bom serem contrariados para aprenderem a lidar com as adversidades do futuro e blá-blá-blá.

Sabem o que acho dessa conversa? Acho que é conversa de merda, normalmente com origem em dois tipos de pessoas, as mal amadas e as que tiveram sempre quem lhes fizesse tudo e para quem uma adversidade é a manicura estar de férias quando têm festa marcada.

Em resumo, o puto ficou contente, eu fiquei a atirar para o contente, o pai pareceu contente e a  fotógrafa apesar de cansada coitada também me pareceu satisfeita com o pagamento imediato.

Toda a gente ficou, se não feliz, pelo menos próximo disso.

Só falta saber as figuras que fizemos.

 

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