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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Uma espécie de educação física na escola

O verão avizinha-se e a vergonha de um corpo flácido com excesso de diâmetro abdominal manifesta gradualmente o incomodo que causa à alma que o possui. Em resultado deste incomodo encontra-se e necessidade de mexer o lombo para o tornear. 

É bom para a saúde dizemos. E é. Porque desponta a alegria que temos escondida cá dentro depois de encontrarmos mil motivos para falecer numa corrida de 5 kms.

O verão está à porta e voltei a encontrar as mocinhas americanas do ano passado. Mal olhei para elas, fiz dois exercícios e cansei-me. Mas desta vez quero que seja diferente. Subscrevo o programa de treinos, a dieta saudável e colorida. Subscrevo o seu corpo torneado e viçoso e agendo no caderninho que me acompanha que dentro de semanas estará assim. Fica a faltar uma visita ao cabeleireiro para acrescentar os longos caracóis loiros. A visita ao senhor do bisturi para me tornear o rosto com umas maçãs mais alegres. Uma visita ao melhor dentista para pôr porcelana nos dentes que passarão a encadear durante a noite. Sorte que o cansaço impede que haja sorrisos pela noite dentro.

 

Começo a receber os planos de exercícios. Tudo tão certo e correto. Tudo tão bem feito. Tudo tão no conforto do lar. Tudo tão gratuito e lembro-me. Lembro-me de quando era miúda. De quando não havia alteres à venda em qualquer lado, de quando comprei um par por quase quatro contos. Lembro-me que foi uma sorte.

Lembro-me da cassete da Paula, que tinha a mãe hospedeira de bordo e que trazia coisas do estrangeiro. Lembro-me da cassete da Cindy Crowford que me emprestou para apontar num papel os exercícios. Lembro-me que ma emprestou com o aviso “olha o teu vídeo não me pode comer a fita da cassete, só tenho essa”.

 

Lembrei-me de tudo isto que nada tem que ver com o titulo e pensei nas minhas aulas de educação física. Das cambalhotas que detestava, dos pinos que não fazia, dos pontapés para golo que não marcava. Acertava sempre nas canelas dos outros. Da bola de basquetebol que insistia em pôr por dentro do cesto apesar de me ver aflita para a apanhar, tal não é a minha envergadura. Da bola de vólei.

Não aprendi nada sobre educação física na escola. Não aprendi nada que me pudesse acompanhar no futuro. Que me fosse útil.

Falava com uma amiga à dias e dizia-me que estava tudo na mesma. Que tinham dado negativa à miúda porque não fazia as cambalhotas. Que o professor era exigente.

Dei comigo a pensar na utilidade de uma cambalhota na vida de qualquer pessoa. Dei comigo a perceber que hoje era bem certo que seria CEO se tenho tido a capacidade de saltar o cavalinho atravessado.

 

Depois pensei que é estúpido. Que nada se ensina aos miúdos. Que se mantém programas arcaicos. Programas que querem ensinar os desportos de sempre sem olhar à capacidade física de cada um. Sem perceber que mais importa ensinar a importância do movimento. Que fazia falta uma corrida e umas flexões, mas que cambalhotas para a frente e para trás não fazem nada mais que dores de cabeça.

Prejudicados são os percursos escolares de quem vê nos livros a satisfação que os 3 pontos no incestar do basquetebol não lhe trazem.

E dou comigo a ficar danada pelos miúdos. Que ainda não são avaliados pelos saltos ao cavalinho. Aquele que me deixou a perna direita roxa de tão negra por mais de uma semana. “Tens de saltar, não tenhas medo, só tens de abrir bem as pernas!” Porventura foi isso, uma incapacidade ou falta de competência no abrir de pernas suficientemente vasto.

Ou isso ou as calças estavam apertadas.

Mas não lhe vejo a utilidade.

 

Vejo os miúdos mais gordos a cada dia. Agarrados aos telemóveis e aos jogos digitais. Sem saber jogar à apanhada ou fazer um carrinho de rolamentos.

Talvez se devesse repensar o conceito de educação física. Adapta-lo a um tempo em que o fitness é moda. Em que aos 18 se metem nas academias a mandar batidos de proteína bucho abaixo com a fé de que com um peitoral mais alargado angariam mais garinas.

 

Volto sempre ao cavalinho e à cambalhota para trás. Para ficar tonta posso sempre dar muitas voltas sobre mim mesma. Para quê agachar-me para rolar para trás. Qual a utilidade? Nunca me explicaram.

Não gosto de ginástica. Gosto de exercício.

E ninguém me faz entender porque não se repensam os temas. Não estamos propriamente a falar de Camões em léguas.

 

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