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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Procura-se: solução para pessoa enfadada

Acordo porque o despertador toca.

Levanto-me porque se não venho trabalhar sou despedida.

Penso mil vezes em ligar a dizer que hoje tenho as cruzes todas fodidas e não me apetece tirar o lombo da cama, porque é uma espécie de um crime submeter o meu corpinho a isso.

Rogo pragas a quem me criou para ser uma gaja honesta e levanto-me. Calham a ter-me criado para ser uma trafulha hoje tinha ficado a descansar.

Faço o caminho para o trabalho com a leve sensação de que as estradas estão demasiado vazias e eu sou a única alma que vai arranhar hoje. Sento-me a trabalhar e só me apetece andar pela net e pensar na vida e nas coisas.

Passeio-me pelo Facebook e ando a ver da vida perfeita de algumas pessoas que já não vejo há anos mas achei boa ideia pedir amizade no facebook. Reencontros de merda porque se as pessoas quisessem ser amigas tinham continuado a ver-se. Dá-me a ideia que são aquelas ideias de cocó que se me acometem à mente quando estou com um copo a mais, ou isso ou quando estou em TPM e penso que o mundo pode desabar.

Há gente com putas de vidas com tanto amor e tanta coisa maravilhosa que me dá a ideia que nunca as conheci. Fecho aquilo, o meu irmão é que tem razão: o facebook dá cabo das vidas das pessoas, parece que começam a viver lá dentro e acreditam que a vida dos outros é mesmo assim, deixam mulheres e maridos, depois percebem que aquilo é tudo a fingir, às vezes estão mais na merda que nós.

Se formos a ver bem, não é diferente da minha vizinha do rés de chão, era a mais limpa de todas mas quando vendeu a casa até baratas tinha debaixo dos móveis.

Estes momentos do ano põem-me em reflexão ou o caralho mais isto. Fico como que presa nas certezas que os outros têm e na cabra cheia de dúvidas que aparento ser. Que não há meio de me decidir com as coisas.

Isto até dor de cabeça me dá.

Decido dar uma volta pela net. Tudo na merda, parece que ou se está calado ou se fala do rescaldo do natal - que é uma puta de uma festa que sim senhor! - ou se fala de resoluções ou então há entrevistas de merda com as perguntas de sempre, o mesmo chapa cinco já lido 1500 vezes. Uma pessoa fecha logo a página. Arroz outra vez!

Desculpem lá qualquer coisa, deve ser do amor do natal, ou do tempo esquisito ou o raio que me parta!

 

As taxas mais baixas de desemprego dos últimos 10 anos

Nas noticias dizem que a taxa de desemprego nunca esteve tão baixa nos últimos dez anos. Pena que esta taxa seja alimentada de trabalhos temporários, trabalhos precários, rendimentos mais baixos, ordenados miseráveis e num regime de engorda dos “mesmos de sempre”. Num regime onde o trabalhador se sujeita “ao que há”.

Pena que se empreguem pessoas a ganhar menos do que ganhavam há 10 anos atrás, para os mesmos trabalhos, para as mesmas responsabilidade.

Mas é tão bom ter boas taxas de emprego; até faz parecer que vivemos num país justo e resolvido. Não fossem os fogos e isto era o paraíso.

No tempo dos meus avós, ambos analfabetos, também havia taxas baixas de desemprego. Havia sempre trabalho. Havia sempre uma enxada para cada um, fruta para apanhar. Havia muita fome também. Compraram casa depois dos quarenta. Mas lá está: trabalho tinham.

 

Uma alma bifurcada

As pessoas não entendem que há gente que tem uma alma bifurcada. Porque não se pode ter uma alma que ora vira à direita, ora vira à esquerda? Até vira para trás.

A mim às vezes dá-me para isto. Outras para rir, para ser uma macaca. A mim às vezes dá-me para nem querer pensar, que estava bem era fútil e superficial. A mim às vezes dá-me para parar no meio de mim e pensar "ora pois para que lado?"

 

Fora de horas #3

Não sei o que é que pesa mais nesta morte interior que consome os dias dos comuns mortais. Se passar a maior parte do dia a cumprir obrigações, sem o prazer de trabalhar por gosto, se ver as fotografias felizes de quem encontrou uma forma de uma fazer. Não por inveja, não. Mas numa certa identificação frustrada por não encontrar a formula certa.

Mas depois cresce a vontade de criar mais, de fazer mais, de tentar outra vez.

Esta força que impede que a palavra desistir se aposse de nós.

E reerguemo-nos. E revivemos. Criamos ídolos. Olhamos para quem encontrou a solução, não com a inveja de quem acha que a sorte lhe bateu à porta, mas como o discípulo que quer aprender para vencer também.

 

Devia

Devia levantar-me a horas. Devia dormir pelo menos 7 horas todas as noites. Devia comer pelo menos 3 refeições de peixe por semana e reduzir as refeições de carne. Devia comer menos açúcar. Devia fazer exercício todos os dias. Devia estar a horas no trabalho todos os dias. Devia almoçar na hora exata. Devia sair a horas. Devia estar mais tempo com o meu filho. Devia ter mais calma. Devia relativizar. Devia acreditar que as coisas se resolvem sempre. Devia ser mais positiva. Devia beber mais água. Devia passear mais ao ar livre. Devia ter a casa sempre limpa e arrumada. Devia saber sempre o que há para jantar e o que comer ao pequeno almoço. Devia deixar a roupa pronta para o dia seguinte. Devia insistir com a comida do pequeno. Devia evitar tanto chocolate. Devia eliminar os gadgets à hora da refeição. Devia desligar a televisão. Devia ler pelo menos um livro por mês. Devia escrever mais. Devia passear os cães pelo menos uma hora por dia. Devia fazer brincadeiras com eles e mante-los entretidos. Devia brincar com o pequeno. Devia ensinar-lhe coisas. Devia deitá-lo às nove da noite. Devia contar-lhe uma história. Devia comprar sempre legumes frescos. Devia cozinhar tudo na hora. Devia cortar o cabelo. Devia arranjar-me mais. Devia usar mais vezes saltos. Devia maquilhar-me. Devia poupar mais. Devia fazer a lista de compras. Devia comparar preços. Devia concentrar-me melhor. Devia lavar a roupa no programa certo. Devia jantar mais vezes com a família. Devia ligar mais vezes aos amigos. Devia jantar fora com o marido. Devia passar fins de semana fora mais vezes. Devia descansar. Devia viver.

 

Devia.

Devia.

Devia.

 

E faço.

Faço muitas destas coisas. Umas como devia. Outra o melhor que posso.

 

Por isso quando me dizem que devia fazer isto e que devia fazer aquilo digo que devia, sim, devia, mas o que está feito é o melhor que consigo.