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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Uma espécie de educação física na escola

O verão avizinha-se e a vergonha de um corpo flácido com excesso de diâmetro abdominal manifesta gradualmente o incomodo que causa à alma que o possui. Em resultado deste incomodo encontra-se e necessidade de mexer o lombo para o tornear. 

É bom para a saúde dizemos. E é. Porque desponta a alegria que temos escondida cá dentro depois de encontrarmos mil motivos para falecer numa corrida de 5 kms.

O verão está à porta e voltei a encontrar as mocinhas americanas do ano passado. Mal olhei para elas, fiz dois exercícios e cansei-me. Mas desta vez quero que seja diferente. Subscrevo o programa de treinos, a dieta saudável e colorida. Subscrevo o seu corpo torneado e viçoso e agendo no caderninho que me acompanha que dentro de semanas estará assim. Fica a faltar uma visita ao cabeleireiro para acrescentar os longos caracóis loiros. A visita ao senhor do bisturi para me tornear o rosto com umas maçãs mais alegres. Uma visita ao melhor dentista para pôr porcelana nos dentes que passarão a encadear durante a noite. Sorte que o cansaço impede que haja sorrisos pela noite dentro.

 

Começo a receber os planos de exercícios. Tudo tão certo e correto. Tudo tão bem feito. Tudo tão no conforto do lar. Tudo tão gratuito e lembro-me. Lembro-me de quando era miúda. De quando não havia alteres à venda em qualquer lado, de quando comprei um par por quase quatro contos. Lembro-me que foi uma sorte.

Lembro-me da cassete da Paula, que tinha a mãe hospedeira de bordo e que trazia coisas do estrangeiro. Lembro-me da cassete da Cindy Crowford que me emprestou para apontar num papel os exercícios. Lembro-me que ma emprestou com o aviso “olha o teu vídeo não me pode comer a fita da cassete, só tenho essa”.

 

Lembrei-me de tudo isto que nada tem que ver com o titulo e pensei nas minhas aulas de educação física. Das cambalhotas que detestava, dos pinos que não fazia, dos pontapés para golo que não marcava. Acertava sempre nas canelas dos outros. Da bola de basquetebol que insistia em pôr por dentro do cesto apesar de me ver aflita para a apanhar, tal não é a minha envergadura. Da bola de vólei.

Não aprendi nada sobre educação física na escola. Não aprendi nada que me pudesse acompanhar no futuro. Que me fosse útil.

Falava com uma amiga à dias e dizia-me que estava tudo na mesma. Que tinham dado negativa à miúda porque não fazia as cambalhotas. Que o professor era exigente.

Dei comigo a pensar na utilidade de uma cambalhota na vida de qualquer pessoa. Dei comigo a perceber que hoje era bem certo que seria CEO se tenho tido a capacidade de saltar o cavalinho atravessado.

 

Depois pensei que é estúpido. Que nada se ensina aos miúdos. Que se mantém programas arcaicos. Programas que querem ensinar os desportos de sempre sem olhar à capacidade física de cada um. Sem perceber que mais importa ensinar a importância do movimento. Que fazia falta uma corrida e umas flexões, mas que cambalhotas para a frente e para trás não fazem nada mais que dores de cabeça.

Prejudicados são os percursos escolares de quem vê nos livros a satisfação que os 3 pontos no incestar do basquetebol não lhe trazem.

E dou comigo a ficar danada pelos miúdos. Que ainda não são avaliados pelos saltos ao cavalinho. Aquele que me deixou a perna direita roxa de tão negra por mais de uma semana. “Tens de saltar, não tenhas medo, só tens de abrir bem as pernas!” Porventura foi isso, uma incapacidade ou falta de competência no abrir de pernas suficientemente vasto.

Ou isso ou as calças estavam apertadas.

Mas não lhe vejo a utilidade.

 

Vejo os miúdos mais gordos a cada dia. Agarrados aos telemóveis e aos jogos digitais. Sem saber jogar à apanhada ou fazer um carrinho de rolamentos.

Talvez se devesse repensar o conceito de educação física. Adapta-lo a um tempo em que o fitness é moda. Em que aos 18 se metem nas academias a mandar batidos de proteína bucho abaixo com a fé de que com um peitoral mais alargado angariam mais garinas.

 

Volto sempre ao cavalinho e à cambalhota para trás. Para ficar tonta posso sempre dar muitas voltas sobre mim mesma. Para quê agachar-me para rolar para trás. Qual a utilidade? Nunca me explicaram.

Não gosto de ginástica. Gosto de exercício.

E ninguém me faz entender porque não se repensam os temas. Não estamos propriamente a falar de Camões em léguas.

 

A crónica do silêncio

Pelo titulo seria de esperar que as linhas que se seguem estivessem em branco. Uma forma de silêncio escrito, a folha intacta, sem tinta nem caracteres, sem palavras nem jogos. Isenta de prolepses e analepses. Despida de qualquer narrativa.

Afinal de contas há conversas em que o melhor discurso é o que assenta no silêncio. Nas palavras que não se dizem. Nas letras que não se conjugam, nos fonemas que não se proferem. Porque ferem, mesmo que a intenção seja contrária.

Martirizo-me quando não percebo o silêncio necessário. Páro e amuo comigo mesma. Porque não raciocinei, porque não pensei, porque não antevi a idiotice que saiu em sopro da minha boca rota. Penitencio-me. Não quero causar mágoa mas origino o desconforto. E eu detesto desconforto.

O silêncio é hoje um momento raro. São capacidades em vias de extinção, aquelas que permitem saber quando estar em silêncio. O sofrimento é excessivamente comemorado. Sim, comemorado, porque não há sofrimento sem observação. Não se sofre sem antes avisar “olha, estou a sofrer!”. Quem sofre de um sofrimento sentido recolhe-se, encolhe o corpo na posição fetal e espera que não o encontrem. Agradece o abraço de quem sabe que o precisa, mas finge que não sente a dor. Porque a dor de sentir o sofrimento é forte demais.

Então recai o silêncio. A inexistência de palavras soltas, belas, complexas ou simples. Apenas a dor.

Gosto do silêncio porque diz mais que as palavras. Mas lá está, que era da vida sem as palavras, aquelas que atiramos à direita e à esquerda sem pensar muito bem em quem vão acertar. Palavras que lançamos em voto de som, sem saber que embatem por vezes com mais força do que um carro em alta velocidade.

As melhores palavras revestem-se por vezes do mais profundo silêncio. São aquelas que não são ditas. São aquelas que as sabem dois corpos que se suportam num abraço.

Gostava de pensar bem antes de falar. De reconhecer o silêncio quando ele é necessário. De deixar de o quebrar por incomodo. Porque o silêncio incomoda, agita, acicata. E então falo por falar, com a razão abraçada à intenção, que é sempre a melhor, mas nem sempre chega a bom porto.

 

Não há maior pacóvio...

...que o novo rico. Ou o rico alimentado a mensalidades de vida. Ou quem sabe a classe média que, entre um visa e outro, somados a ordenados mais simpáticos do que aqueles que os progenitores conseguiram angariar, vão fazendo a sua vida de ricos, sempre de favas contadas e agradecimentos a Deus Nosso Senhor, para que o pneu do BMW não rebente, afinal de contas o que sobra do visa depois das compras na GUESS mal dá para almoçar fora marisco os quatro dias que passam no Algarve.

O rico que é rico, ou o rico de berço, gasta dinheiro como se de água se tratasse, sabe que esfregar na cara dos outros o que tem e o que faz denota a profunda necessidade que lhe vejam a carteira, em detrimento do puro prazer sentido pelo simples ato.

O pacóvio profere vezes sem conta a frase que abomino "sabes que não faço por menos", subestimando o seu interlocutor ao estado mental que possuía momentos antes de uma qualquer tomada de decisão.

Por regra a pacóvio canta de galo perto dos que considera menos abonados ou, pura e simplesmente, ainda não expostos à realidade com a qual contactou.

Nesta semana agraciada com dois feriados, tive a oportunidade - no meu gozo de cada um destes belos dias - de contactar com uma espécie desta natureza. Fico sempre com a sensação de que estou em plena selva amazónica e que uma qualquer ave rara insiste em berrar ao fundo das árvores enquanto tento ler o meu livro. Como se já não bastassem as crias "ó mãe isto, ó mãe aquilo". Rezo para que uma anaconda coma a ave rara e se instale o silencio possível, mas Nosso Senhor não me atende e a garça selvagem continua.

"Fique com a boia" gritava para um senhor agachado com a filha pequena. "Digo-lhe, fique com a boia! Sabe, comprei no Brasil, já foi a Angola..." e pelo meio sei que passou por Cabo Verde. Claro que para dar a boia explicou que costuma deixar as crias com amas porque gosta de ir jantar descansada e desenrolou todos os países que entretanto visitou. Uma boia verdadeiramente poliglota, pensei. Muito me admira que não tenha levado a boia aos Himalaias, falta de oportunidade, certamente.

Atracado ao corpo um vestido de trapo mal enjorcado, o marido com ar pouco lavado e as crias corriam nuas por ali.

Uma pessoa a pensar, com tanto areal, tinha de calhar nestes grãos de areia. 

Depressa me lembrei da outra que me diz sempre com uma palmada no ombro e um piscar de olho "olha para mim, sabes como sou, não faço a coisa por menos". Claro que não. 

Nunca com menos falta de classe, nunca com menos idiotice. Ah, os pacóvios, se não fossem eles que mais escreveria eu, de que seria o mundo, um espaço tão mais monótono.

 

A felicidade da fé

Há muitos anos atrás lembro-me de ter lido um texto sobre os benefícios da fé. Não me recordo a propósito de quê era esse texto, nem tão pouco se se trataria de uma passagem de um panfleto impingido pela igreja Jeová. Panfleto esse aceite para não ter de ficar a ouvir os seus pregadores por mais de meia hora.

Recordo-me que um dia, há muitos anos atrás, depois de regressar do funeral de uma pessoa muito querida, uma perda inconsolável, me bateram à porta. Ninguém mais em casa ouviu para além de mim. Abri para encontrar duas senhoras com panfletos na mão e a palavra do senhor na boca.

Estava tão zonza que as deixei falar sem nunca interromper até que ouvi alguém atrás de mim.

- Não estamos interessados, obrigada.

E fechou a porta.

Tinham estado a falar para mim, num estado de letargia profundo, de forma ininterrupta. Satisfeitas de pregar a sua crença sem ser escorraçadas ou questionadas.

Mas dizia eu que li há muitos anos numa qualquer parte que as pessoas que têm fé são mais felizes. Recordo-me que achei estranho e que não me fez sentido. Não fez numa primeira impressão, mas depois parei para pensar no tema.

O que é que realmente mais nos atormenta na vida?

Morrer? Perder quem mais amamos? Ficar doentes? Errar?

Todas elas, porventura.

A vantagem de quem acredita verdadeiramente é a capacidade de se desvincular da responsabilidade. É a criação de uma segunda hipótese que o descrente sabe não existir. Para o crente a vida continua no céu, ao lado de Deus, onde vai encontrar todos os amigos de que se despediu. Por isso quando morre alguém “deixa lá, foi para um sitio melhor!”. Se fica doente, Deus vai dar uma ajuda. Se errou, é porque Deus quis que assim fosse.

E Deus guarda nas suas costas largas a responsabilidade e a culpa de tudo o que nos assombra a mente.

Torna tudo mais fácil, dá mais espaço para descansar a cabeça.

“Entrega p’a Deus!”, como dizem os brasileiros.

O mal está quando não acreditamos. Quando colocamos em causa que uma entidade que nunca ninguém viu decida o destino de biliões de pessoas. O problema está quando morrem crianças pequenas com cancro ou nas margens de uma praia.

Como é que não se questiona?

Se Deus existe porque há sofrimento? Porque raio há pedófilos? E terroristas?

Ou será que faz como os pais que têm famílias numerosas e entrega tudo para a autogestão?

Mas quem tem fé acredita e consegue ir mais além. É verdade. Despreocupa-se com a morte porque mais não é que uma breve despedida. Relativiza o erro, “porque Deus sabe melhor!”

E eu invejo essa crença. Gostava de a encontrar. Sair-me-ia de cima a culpa e o medo. Porque Deus me ajudaria a encontrar o caminho que não me é fácil fazer por conta própria.

 

Um código de estrada em 2 rodas

O tempo de vida que gasto parada em filas secantes para chegar ao trabalho, permite-me a liberdade de observação de comportamento humano. Algo que se assemelha muito ao que se faz num safari no Quénia, mas menos bonito e muito menos glamoroso. Digamos que é o safari dos pobres. Nem é preciso ter carro que podemos ir de autocarro. Vê-se de todo o tipo de animais e bestas. Uns mais selvagens do que outros. Uns mais espertos, outros apenas chicos-espertos. E depois os que já não se dão ao trabalho…como eu.

Nesta minha investigação forçada que dura há anos podia falar das hienas que vão pela faixa da direita para se meter à frente de quem está na fila a secar há mais de 3 quartos de hora. Porque, afinal de contas, a sua vida é manifestamente mais importante que a dos outros. É gente que se alimenta de restos. Neste caso dos restos de paciência que um ser humano tem quanto está já à beira de chegar ao guiché para pagar e ir à sua vida.

Podia falar nos metidos a panteras, que fazem razias nas filas e vão metade do caminho pela berma. Mas esses já se lixam que chegue quando os GNR’s lá estão para os multar. O que me regalo quando lá está a GNR.

Mas vou falar de aves raras. De motociclistas. Tipos que por escolha própria vão para o trabalho de mota. Estas pessoas, que têm a mesma carta classe B que eu, quando montadas naquela geringonça pensam que se escreve no imediato todo um código de estrada só para elas. Criam-se faixas imaginárias entre carros, as ultrapassagens fazem-se pela direita e pela esquerda, é à escolha do freguês. Aí de quem não lhes faça a vontade.

Carros seguem a sua vida sossegados na sua faixa, ali a pensar que estão a cumprir com o código da estrada, só para depois dar com um neandertal em cima de uma mota, a gritar dentro do capacete e a esbracejar porque uma pessoa tinha que se encostar à berma para criar espaço para ele passar com aquela mota que tem a largura de um smart antigo, com aquelas duas caixas que leva de cada lado.

Gritam, esbracejam, ameaçam. E uma pessoa sem perceber o que fez. Afinal de contas o condutor do automóvel teve o desplante de usar a faixa sem se encolher para o lado que mais interessa ao motociclista, impedindo-o de passar naquela faixa imaginária que toda a gente sabe que se cria quando ele passa. É como nos episódios do meu pequeno pónei, em que quando o pónei passa larga do cu uma luz fluorescente que faz o arco íris.

Não sei se é falta de civismo, se passa apenas por terem a cabeça demasiado apertada dentro da cabeça.

Ou isso ou é como se diz com os eletrodomésticos, o material tem sempre razão. E neste caso há apenas a incapacidade de utilização cerebral. Deram-lhe o cérebro e esqueceram-se de entregar o manual de instruções.

 

Vamos lá falar (ou tentar) de liberdade de expressão

As ideias assoberbam-se-me à mente como miúdas histéricas num concerto do Justin Bieber. Quero encontrar um fio condutor e civilizado para falar deste tema, mas é-me difícil.

É, porque devíamos todos compreender o que realmente é isto da liberdade de expressão, até porque nos foi sonegada durante tanto tempo, mas infelizmente não é isso que acontece.

Não vou dizer todos, porque ainda há pessoas civilizadas e instruídas à face do planeta, mas os mentecaptos continuam a achar que, porque lhe deram a liberdade de dizer toda a merda que lhe vem à ideia, ganharam o direito de abafar e calar os outros porque: a) dizem alguma coisa com que não concordam; b) dizem alguma coisa que foi proibida por uma qualquer instância divina que ninguém conhece.

Estas pessoas, normalmente sentadas atrás de um computador e munidas de um teclado, assaltam redes sociais, blogs, revistas online, o que for que tenha uma caixa de comentários, e descarregam o seu veneno e a sua verdade absoluta sobre aqueles que cometeram o crime de proferir a sua opinião.

Podemos achar que essa opinião, que essa piada, que esse texto, são até impróprios ou incorretos. Podemos saber que não o faríamos. Mas a pessoa tem de ter a liberdade de ser estúpida.

Como diria o RAP, as pessoas hoje em dia têm demasiadas sensibilidadezinhas. Afetam-se com tudo e com todos e se as coisas não correrem a seu bel prazer fazem baixar sobre os outros um qualquer inferno para o qual, esses "os outros" se estão muitas vezes a borrifar.

Quando isso não acontece criam-se guerras virtuais e inventadas entre pessoas que nunca tiveram um desentendimento.

Lembro-me de há tempos ter havido uma graçola que o Raminhos fez com o Quaresma. O Raminhos fez uma piada totó com uma foto que o Quaresma pôs no Facebook. O Quaresma fez a coisa certa, respondeu na mesma moeda gozando e bem com o Raminhos, e quando pensávamos que a coisa tinha terminado porque cada um deu a sua laracha, vem um rol de gente que não conhece nenhum dos dois, tomaram posição de um deles e vai de ofender a pessoa e de dizer que “não tinhas nada de te estar a meter com o rapaz”.

O trabalho do Raminhos é fazer humor. Não é infligir dor. Gozou, foi gozado. Ambos foram crescidos e tiveram capacidade de encaixe. Tiveram lugar a ser idiotas – que também é um direito – e seguiram à sua vida.

Agora, quem são estas pessoas para mandar calar alguém.

São mentecaptos que ainda não perceberam que no dia em que não houver liberdade de expressão para uns, eles também vão ter de se calar.

Mas lá está, o umbigo é tão maior que o cérebro que torna muito difícil pensar.

 

O imperativo da felicidade

Nunca antes se ouviu falar tanto em felicidade. Ser feliz é hoje uma obrigação. É um direito. É uma escolha.

A que gosto mais é da ultima. É uma escolha, dizem. Sou feliz porque escolho ser feliz.

Tenho um cancro mas tenho de ser feliz porque é uma escolha.

Perdi uma filha mas sou feliz porque há vida para além dos filhos e eu escolho ser feliz.

Perdi o emprego, a casa, vivo com os meus pais e nem um rebuçado posso comprar para os meus filhos, mas sou feliz. Não porque tenha razões para isso, mas porque escolho ser feliz.

Hoje toda a gente vende a felicidade, até a loja de gomas no centro comercial que por 5 euros e 50 cêntimos nos entrega um frasco com a dosagem de gomas que temos de comer para encontrar a felicidade.

Ou os diabetes.

Há livros com receitas para comermos os ingredientes que propiciam os minerais e as hormonas que nos deixam felizes. A ocitocina da vida.

O exercício e os pensamentos positivos.

As frases de Facebook e as fotografias lindas do Instagram.

Não há gente triste nas redes sociais. Há os mega felizes e os raivosos que por lá andam para ser os professional haters que implicam com tudo e com todos espalhando veneno, quais cascavéis enlouquecidas.

Compram-se guarda roupas de marca cara sustentados por cartões de crédito levados ao limite. Todas as fotografias se acompanham do #lucky e quem vê deprime a pensar que a sua vida é um barril de merda comparando com os maravilhosos dias encantados dos que segue.

Força de vontade a rodos e #no excuses.

 

Há uns meses fui jantar com uma amiga que estava para se separar, dizia-me. O marido não evoluía, não a conseguia acompanhar em todas as coisas que queria fazer na vida. Estava farta dele mas tinha pena de deitar anos de convivência pela pia.

Uma semana depois dou com declarações de amor rasgadas no Facebook. Sem ele a vida, aparentemente, não faz sentido. Mas isso só na vida da rede social. Na real está mais farta dele que um cão da sarna.

Mas a felicidade impõe-se, e se não serve para estar no pináculo da felicidade é preciso mudar.

Perseverança é uma palavra usada apenas e só se estivermos a falar de superalimentos, na recusa do açúcar ou agachamentos. Circunstâncias em que a vida se gere #withnoexcuses.

 

Acabam namoros mas a vida continua. Hoje aparentemente só existem duas saídas, a depressão ou o dar a volta por cima de tal forma que ficamos melhores do que estávamos com essa pessoa.

A raiva e o despeito não são vividos, são absorvidos pela vontade de fazer ver que a vida pode ser boa na sua ausência.

Mais likes. Mais seguidores.

E assim se segue, com mulheres abandonadas, empregos que consomem a capacidade mental, dias completos e assoberbantes, atividades desportivas intensivas e dietas rocambolescas.

Porque ser feliz não é um contexto, não é um resultado de factores, não é uma disposição. Ser feliz é um objetivo, é uma obrigação, um dever, um direito e acima de tudo uma escolha.

 

Os quarentões super hiper mega fit

Não tenho nada contra as pessoas fit. Até gosto bastante de gente que se mantém em forma. Não tenho nada contra as pessoas super hiper mega fit. Apesar de achar que às vezes tendem a tornar-se um pedaço entediantes considerando que qualquer conversa que se tente entabular ira, invariavelmente, desaguar em treinos de distância, treinos de alta intensidade, agachamentos, suplementos e outras tretas similares. 

Não tenho, de forma alguma, o que quer que seja contra os quarentões e as quarentonas - malta na casa dos quarenta. Não tenho até porque daqui a não muito tempo também farei parte desse gangue sem retorno e como tal, nada a obstar.

Agora, quando falamos de pessoas na casa dos quarenta que depois dos quarenta se tornaram super hiper mega fit, aí já entramos noutra conversa. 

Convivo bem com aqueles que sempre praticaram desporto e hoje é algo perfeitamente natural, falam disso com outros que mantém o mesmo interesse ou quando questionados. Mas esta malta é toda uma outra história. Falamos de gente que passou as primeiras quatro décadas da vida à base de pastelaria, chanfana, cozidos e imperiais e que hoje, depois de se lhe ter passado qualquer coisa pela vista, fez uma inscrição no ginásio, descobriu as corridas, foi apresentada aos batidos verdes, recebeu toda a evangelização da droga que é o açúcar e não sabe pregar outra coisa que não seja relacionada com o ser fit.

Falamos de gente que alimentou os filhos a rissóis e bifes-com-batatas-fritas-come-e-não-me-chateies-que-já-não-sei-que-faça-para-tu-comeres e que hoje quando vê alguém a dar um rebuçado a um filho se sente na obrigação, se não mesmo no dever, de mandar bitaites quanto às escolhas daqueles pais porque o açúcar é uma droga e os miúdos ficam viciados e depois não querem outra coisa e os diabetes e mais não sei o quê.

Esta malta que foi criada a calipos e coca-colas e peta zetas e caramelos de agarrar aos dentes. Até parece que o país está cravejado de obesos.

A obesidade é, se margem para duvida, um problema mas ainda não falamos da maior parte da população. 

Perderam uma mão cheia de quilos e agora sabem mais dos iogurtes do LIDL do que o tipo que os inventou. Bebem batidos de proteína whey e tendem a tentar policiar a vida alimentar dos outros.

Tornam-se maçadores porque parecem ter perdido a capacidade de falar de outra coisa. Isto é gente que não é pluricompetente no campo do conteúdo. Naquelas cabeças só é possível um tema de vida de cada vez.

Quando entraram para a faculdade aquilo é que era. As cadeiras, os professores, a tuna, as praxes, a farpela que essa malta usa.

Depois entraram para o primeiro emprego. Único tema de conversa. Casamento. Vestidos, convidados e bouquets até uma pessoa deitar arroz pelos olhos. Filhos. Os que lhes ocupam a maior parte da vida de conteúdo. A gravidez, o parto, a surpresa, as noites mal dormidas, os vomitados, as fraldas cagadas, as asneiras, a escola, a mudança de escola, os colegas, a adolescência. Quando chegam a esta parte os filhos começam a caminhar para ter gradualmente vidas mais independentes e então o olhar para o espelho diz que está na hora de fazer alguma coisa por si abaixo.

Momento ao qual tiro o meu chapéu. Alguém pegar em si e tentar melhorar-se é sempre de louvar.

O problema é que este é um tipo de ser humano que depois persegue o outro. É uma desgraça uma pessoa tentar comer duas bolachas com pepitas de chocolate na cafetaria. Fica a saber todo o mal que podem fazer e todo o bem que contem aquele momento fica amargurado por saber que vão ficar presas nos meus abdominais e que podem estar a alimentar células más no meu interior.

Depois vão à sua vida, pregar para outra freguesia, quem sabe tirar mais uma foto no fim de um treino para pôr no facebook e no instagram.

Sempre o mesmo hashtag

 

#noexcuses #nopainnogain #ageisjustanumber

 

 

Quando o secundário é o pico da nossa vida

Nunca fui uma pessoa brilhante, com estrelinha. Nunca fui a aluna favorita, a colega que todos gostavam, a miúda mais gira ou a melhor no corta mato. Aliás, até aos meus 25 anos contaram-se pelos dedos das mãos as vezes que corri. Não gostava, não queria e nem para apanhar o autocarro em fuga me dava ao trabalho.

Quando eu andava no secundário, com as minhas jardineiras de bombazina pretas, a minha camisola mais curta que deixava ver um pouco de pele, mas apenas a bastante para não se perceber que afinal não havia abdominais definidos. Os meus ténis sujos, o meu penteado de sempre, com o cabelo amarrado, o dossier debaixo do braço e um estojo de pano. Quando eu andava no secundário ninguém dava nada por mim. Provavelmente acabaria numa caixa de supermercado, a fazer camas em hotéis, nas limpezas. Sempre fui uma aluna mediana a tudo. Nunca me dediquei o suficiente a nada. Mas gostava dos livros. Gostava da biologia. Detestava a matemática e fugia da química.

Quando eu andava no secundário nem eu dava nada por mim. Perdia-me em sonhos na sala de aula. Imaginava os dias em que já não iria haver secundário, em que eu era uma professora de educação física, em que eu era uma veterinária, em que eu acordaria com uma voz brilhante e seria cantora, quem sabe atriz. Pensava nas hipóteses que a vida podia ter se arranjasse dois empregos e fosse estudar para Coimbra.

Gostava de ter estudado em Coimbra.

Hoje penso que se o meu filho me diz que quer ir estudar para Coimbra me mudo. Que vou atrás dele e que me escondo a cada esquina não vá dar-se o caso de não o tratarem bem.

Quando eu andava no secundário passava por entre os pingos da chuva, não era miúda de grupos e queria apenas que não me chateassem a cabeça. Dava-me com quem estava e seguia à minha vida.

Mas nessa altura haviam sempre os alunos de que se esperava mais. Eram bons alunos, eram caricatos, eram miúdas giras que tinham cadernos irrepreensíveis, sempre com as cores certas e as notas adequadas. As que tinham um corpo de modelo, as que corriam corta mato, as que eram as melhores no vólei e tinham cabelos longos e fartos. As que até já tinham viajado. As que tinham vintes a mais do que um exame. As que se vestiam a desafiar as regras. Os que iam ser jogadores de futebol. Os que ninguém achava nada. E os que ninguém dava nada.

Depois a escola acaba, veio, para alguns, a universidade. Para outros o trabalho, porque não tinham notas para a área que queriam, porque iam experimentar ganhar algum para tirar a carta e juntar dinheiro para as propinas.

A seguir uns acabaram cursos que não serviram para nada, outros tornaram-se médicos, engenheiros ou enfermeiros, outros nunca se chegaram a inscrever, continuaram a trabalhar.

A vida foi caminhando e os sonhos foram-se concretizando para alguns. Para outros ficaram na prateleira como aquele livro que compramos para ler e que só vê pó. De quando em vez olhamos para ele e dizemos “um dia leio-te”.

Uns tiveram filhos. Outros viajaram. Outros ainda andam à procura do que fazer com a vida. Agarrados a canudos que não servem para nada e à espera daquela oportunidade que não há meio de aparecer. Uma vida suspensa.

Há ainda quem tenha emigrado.

Vidas completamente diferentes. Muitas totalmente diferentes do que tínhamos imaginado.

E eu olho à minha volta e penso que afinal não devia ter tido preocupações. Que afinal as coisas se compõem. Que o melhor é deixar que o pico da nossa vida ainda esteja para vir.

Porque depois do secundário há toda uma vida pela frente. E quando essa fica aquém sentamo-nos zangados e a pensar em tudo o que seriamos um dia e que afinal a vida não deixou ser. Uns porque a sorte não ajudou, outros porque acreditaram que a vida sopra sempre a favor. Mas uma cara bonita não serve para tudo. E o puto que dava bons toques na bola nem sempre cresce para ser o Cristiano Ronaldo.

 

As crianças não são sempre fofinhas

No Domingo fomos passear em família ao jardim perto de casa. Temos a casa numa circunstância de profunda nojo e desarrumação o que, há falta de empregada que faça as coisas, temos de ser nós a limpar mesmo que apeteça passar o dia com os corninhos ao sol como faz o caracol.

Chegamos ao jardim e eu fico com o piqueno enquanto o pai vai correr.

No jardim há vários espaços para crianças, com escorregas, baloiços, aqueles túneis ou-lá-o-que-é, entre outras coisas que não havia no meu tempo. O piqueno gosta de brincar com a areia. A sua pazinha, o seu ancinho e lá anda ele a escavar areia de um lado e a leva-a para outro.

Quando chegamos havia miúdos por todo o lado. Eu não sei como é com as outras pessoas mas eu fico numa agitação só com aquela miudagem toda aos saltos e aos gritos. De facto gabo a paciência das educadoras de infância. Eu, em vez de manter a tranquilidade vou sorrindo e tentando manter a calma interior.

Um grita, outro manda vir, outro tira não sei o quê a outro, outro anda de cabeça para baixo. Vem logo uma direita ao meu piqueno para lhe tirar a pá. Apareceu o avô de esguelha mesmo a tempo de eu ter de intervir.

O meu puto sempre numa descontração só. Na vida dele como se nada fosse. Admiro-o por isso.

Vai de um parque para outro e a caminho há uma miúda que se estatela a andar de trotinete. Desata a berrar numa choradeira desgraçada.

Eu pensei, coitada deve mesmo ter dado um ganda malho.

Estamos nós a chegar lá ao espaço com areia que tem um comboio com madeira e vejo a mesma miúda do espalho já bem grande a entrar atabalhoadamente pelo comboio. O meu piqueno a brincar com a sua areia carruagem a carruagem e a miúda no encalço dele. Eu ao lado a ver no que aquilo ia dar.

Aqui importa se calhar esclarecer que o meu puto tem 2 anos e a miúda tinha pelo menos 8 (ou então estava tremendamente desenvolvida).

Chegamos ao fim do comboio de madeira e o meu piqueno começa a pôr areia no ultimo vagão que é suporto imitar o vagão de carga.

A estúpida da miúda põe-se de pé lá dentro e começa a arrastar com os pés grandes a areia toda que lá estava (montes de areia de várias crianças brincarem) cá para fora em direção ao meu miúdo.

Comecei a vê-la assim meio enevoada mas pensei deixa lá ver o que esta otariazinha bully vai fazer porque se os paizinhos não aparecem vou eu ter de lhe explicar que a vida não é assim.

Tal não é o meu espanto quando começa a ralhar para o ar:

- Isto não é para pôr aqui areia. Depois as crianças querem deitar-se aqui e ficam todas sujas.

Tudo enquanto continuava a raspar os pés no chão. Ora estamos perante uma criança que das duas uma, ou é má de natureza, porque está a tentar fazer mal a um bebé de 2 anos ou tem sonhos com comboios que levam no vagão de carga pessoas lá deitadas e emprateleiradas. Ou isso ou precisava de uma galhetazita de quando em vez.

Como se não bastasse diz para o meu puto altiva e petulante:

- Não mandes p’aqui areia pá!

E eu mando vir a mãe loba que há em mim e digo-lhe:

- OLHA LÁ AMIGA! Tás a brincar não estás?! Então deixa-o lá brincar a ele que é pequenino.

E ela pôs-se a andar.

Com isto o papá e a mamã nem deram as caras e estava a brincar ao vólei com uma bola dos filhos ao pé de crianças de 1 e 2 anos sujeitos a acertar numa. Por sorte só me acertaram a mim.

 

Há muita coisa que aprendemos, há muita coisa que vimos na televisão, mas quando uma criança de 8 acha boa ideia ir implicar com um bebé de 2 há qualquer coisa que não está bem. Desculpem-me a franqueza.

Depois admiramo-nos dos bully’s e dos que fazem mal aos mais pequenos.

É isto.

As crianças nem sempre são fofinhas e queridas, às vezes dá mesmo vontade é de lhes pregar umas valentes lambadas. Eu levei as minhas e hoje estou aqui fina e rija. E no meio disto nunca me deu para implicar com os mais pequenos.