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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Conto #17

Naquele dia o sol estava impiedoso, não me recordava em quarenta e poucos anos de vida de sentir um calor assim. Eu de fato. Eu sentado no meu velho Fiat, as gotas de suor a escorrer pela cara, a mala de catálogos pousada a meu lado. As vendas que não saiam, os clientes que já não tinham verba para mais inventário e um patrão alheio às condições do mercado.

“Rodrigues, sabes que isto em Portugal não anda fácil!” Na minha cabeça mandei-o para a puta que o pariu, da minha boca saiu um “entendo senhor Marques” e um sorriso amarelo.

Cheguei a casa sem uma venda feita. O lenço de pano que já tinha sido branco em tempos estava molhado de amparar tanto suor. A visão numa névoa, tudo me parecia turvo, os carros, a estrada, a vizinha do quarto direito, a coscuvilheira de serviço que me cumprimentava a cada entrada e a cada saída. Quase me parecia um cabrão de um controlo de ponto.

Fecho a porta um homem acabado, um poço de desespero, um mundo de perguntas para as quais ninguém encontra resposta, uma delas como pôr comer na mesa.

Na sala o mais velho alvitra “o povo tem de se revoltar. Chega de Salazar!” e eu, ainda de vista toldada pelo calor, prego-lhe uma bofetada. “Aqui não se fala assim de Salazar. Porque tenho de trabalhar e tu tens de comer!” Só depois me ocorreu que não se bate na cara de quem já faz a barba. Mesmo que o tenhamos carregado ao colo.

Por isso quando me disse que não tinham espaço lá em casa, aceitei. Afinal de contas há momentos em que o amor se molda ao orgulho, em que marcamos o nosso significado nos que mais amamos. E depois...depois temos de viver com isso.

 

Conto #16

Naquele dia deixei-me ficar a observa-la. Sempre confiante de si mesma, um controlo de movimentos que quase denotava a frieza que não tinha. Percebia uma agitação interior controlada com a necessidade de manter as aparências que a circunstância pedia.

Eu sempre fora de contexto, como um peixe desengonçado que nada fora da água. Com o dedo anelar ajeita o cabelo arranjado há duas horas no cabeleireiro e enquanto percorre a sala com o olhar ajeita as madeixas atrás da orelha deixando brilhar os brincos comprados a custo e que usa apenas em ocasiões especiais.

Vê-me do outro lado da sala, porventura demasiadamente perdida nos seus gestos, como quem regista para mais tarde copiar, como o macaco que emita os gestos, ou quem sabe a criança que aprende com o que vê. Caminha lentamente em minha direção e eu sinto uma gota de suor percorrer a minha espinha. O desconforto percorreu o meu corpo como uma onda de eletricidade veloz e em frações de segundo tinha pairado até mim.

“Está a gostar da festa?” Tossi um simples sim enquanto o cérebro me pedia uma solução para fugir.

Dormes com o marido dela. Porque me quer, desengonçada, com uma mulher destas em casa?

“Não percebi bem o convite feito pelo meu marido à sua pessoa. Trabalham juntos? Não me lembro de a ter visto no laboratório.”

E eu sem saliva para engolir. A boca que lhe beija o marido seca como uma rolha. A boca que não fica sem palavras na cama de hotel em que nos nossos corpos se envolvem.

Ela sabe. Claro que sabe.

“Deve ser uma excelente profissional…para ter sido convidada!”

E afasta-se depois da observação. Não sem antes percorrer o meu pobre ser com os seus olhos azuis safira. O gelo com que ele se deita.

 

Conto #15

Sentei-me no banco de pendura do carro. Recostei-me e fechei os olhos. As lágrimas rolavam pelo meu rosto.

- Queres falar?

Sentado a meu lado tentava segurar na minha mão. A dor de ver quem se ama a sofrer sem saber o que fazer.

Continuei recostada no banco do carro, os olhos fechados e a escassas de palavras. Eu, que falo pelos cotovelos, sem saber que palavras usar. Um sentimento desesperante, quase tão frustrante quanto os meus dias.

Choro e sinto o carro a trabalhar. Está a estaciona-lo virado para a parede, para que pudesse ter alguma privacidade na minha dor.

- Já não sei nada. Já não sei o que mais fazer da minha vida. Sinto-me frustrada. Sempre frustrada. Numa agonia constante que me faz ficar mal disposta. As obrigações do dia a dia mais aquelas que me imponho. Sinto-me cansada. Tão cansada. Já não dou conta do recado.

 

A semana tinha começado mal. Alguns anos atrás tinha aceite ser fiadora de um contrato de financiamento de um familiar. A vida desse familiar ficou do avesso e a divida dele ficou comigo. Já andava a carregar com esse fardo há mais de um ano e nesse dia fiquei a saber que ainda ia durar mais 3 anos. Tinha projetos para a minha vida, mudar de casa, um colégio melhor para a miúda. A minha vida tranquila de comprar mais uns sapatos se me apetecesse.

Tudo por água abaixo. O ordenado não ia dar para tudo.

Os dias de trabalho sempre iguais numa esquizofrenia constante. Sem mãos a medir. As noites com falta de descanso. As semanas a passar carregadas de dias repletos de obrigações. A cabeça a ceder. A voltar a ceder como já tinha feito um ano antes. O ano em que comecei a ter ataques de pânico e de ansiedade. Em que os meus medos começaram a mandar mais na minha vida que eu.

 

Sentada naquele banco do carro vi a minha vida estagnada. Sempre iguais.

- Eu só quero uma solução. Uma janela para uma coisa diferente ou a capacidade de aceitar de forma tranquila que a vida é mesmo assim. Uma das duas, só quero uma.

Chorei. Chorei muito. Não tinha conseguido almoçar, a comida dava-me vómitos e a minha cabeça dizia-me que me estava a dar qualquer coisa, não fazia sentido estar enjoada assim, do nada.

Neste dia. Hoje, decidi que a vida tem de ser diferente. Que tem de ser vivida com mais calma, com a serenidade possível dos dias frenéticos que tenho.

 

Decido fazer uma lista das tarefas que temos a nosso cargo.

 

Levantar às 06.

Vestir.

Preparar malas de refeição para o dia

Preparar pequeno almoço

Tomar pequeno almoço

Lavar dentes

Fazer necessidade fisiológicas

Preparar as crianças 

Dar de comer à tartaruga

Pôr comer à gata

Limpar a casa da gata (caso contrário mia todo o dia)

Sair a bufar com no mínimo 1 mochila, 1 saca de almoço e a minha mala. Há dias em que descemos com estes 3 sacos, mais dois de desporto para ir ao ginásio (apesar de depois não irmos)

Meter tudo no carro e ir deixar a menina ao colégio

Ver o transito e seguir para o trabalho.

Seguir para o trabalho

Sentar a trabalhar.

Toca para a hora de almoço e engolimos o que vem na marmita, vamos comprar coisas que estão sempre em falta em casa: fruta, papas, meias, iogurtes, leite, enfim tudo o que nos falta na lista porque quando a fazemos – e fazemos – temos a cabeça tão cansada que não damos conta de tudo. E insistimos fazer de cabeça. Invariavelmente compramos coisas a mais e outras a menos.

Voltar a sentar a trabalhar.

Sair a horas (tentar...porque há sempre mais um relatório para entregar)

Metermo-nos no transito.

Já de noite chegamos a casa.

Um adianta o jantar e os almoços do dia seguinte.

O outro trata da descendência.

Jantamos.

Todos para a cama.

Olha-se para o relógio.

Sentamo-nos um de cada lado a ler o prometido capitulo de um livro.

Para desligar com o dia.

Nós deitamo-nos a pedir que amanhã seja dia outra vez. Agradecemos o que temos e pedimos que se durma a noite seguida.

Às 4:15 acorda, quer leite e o aconchego da cama dos pais.

E o dia começa outra vez.

 

Esta é uma rubrica de contos. Cujo teor é totalmente ficcionado.

 

Conto #14

Passa pouco das 10 e já todas estão juntas para o café da manhã. “Tens uns sapatos de meter inveja”, diz a Graça para a amiga Natália. Nem sempre veem taco a taco e a primeira procura a aprovação da amiga. Afinal de contas tão mais sabida e certa. Foi a primeira a casar-se “arranjou um oficial de marinha” dizia a mãe orgulhosa. Nunca trabalhou um dia, guardava as manhãs para dar as instruções à empregada que lhe arrumava a casa e fazia as refeições. Saia para beber café, arranjada e de mala com corrente dourada. Os saltos sempre impecáveis. Uma elegância que encobria a falta de densidade que lhe preenchia o âmago. O filho já caminhava para a escola. O casamento por conveniência. Sabia-se que o oficial era um homem com muito amor para dar e que o espalhava além fronteiras. “O meu marido é um senhor, em casa garante-me tudo” dizia à boca cheia. Graça bebia as palavras da amiga e sonhava com o dia em que encontrava um oficial para si, um homem que fizesse dela uma senhora de mala com corrente dourada, sempre em cima de saltos polidos. A senhora que dá indicações à empregada e arranja o filho antes da escola. Enquanto não se criava a oportunidade bebia as palavras da mulher que idolatrava. “Com a idade que tens não sei se te safas com um homem como o meu. Já começas a caminhar para velha…temos de os encontrar na altura certa…mas deixa lá, é importante aceitar o que a vida nos dá” dizia Natália a Graça sempre que falavam de casamentos. Assunto que se assomava ao pequeno almoço de amigas quase todas as manhãs. Afinal de contas já pouco lhe dava prazer na vida e não tinha qualquer interesse em ser mais uma. A amiga que a venerava passar a ocupar o seu estatuto era algo que a perturbava. Então insistia que já ia tarde, que não tinha a classe necessária para encontrar um homem como o dela, que sempre tinha sido demasiado roliça para um homem de farda branca. Qualquer motivo que rompesse com as esperanças de Graça e lhe causassem lágrimas de desgosto nos olhos. O prazer que retirava no sofrimento de alguém que tanto bem lhe queria. Natália não sabia porque se sentia feliz com a desgraça de Graça, afinal de contas eram amigas e Graça nunca tinha feito nada que a ofendesse. Mas era o domínio sobre o bem estar da amiga que a preenchia por momentos.

Quando não se falava de casamentos, ou das viagens do marido de Natália, sempre a países que mais ninguém tinha visitado, suscitando sonhos acordados na pobre Graça, o assunto era o pobre casamento de Matilde. Conheciam-na desde tenra idade, esperta que ela só, sem papas na língua. Não se dava a seguir a carneirada e lá tinha a opinião dela sobre as moças, agora senhoras, que se sentavam todas as manhãs por mais de duas horas, entre café, chá e bolos, a relatar o bem e principalmente o mal da vida alheira.

“É um putedo senhor Alfredo” dizia a Margarida que trabalhava na pastelaria desde moça e assistia às conversas todas.

“Falam muito de ti às vezes” dizia Margarida e Matilde sabia. Afinal de contas que tinham elas mais para falar que não fosse da vida alheia.

“Do marido da empinocada, que fode tudo quanto mexe, não falam de certeza! Então o homem é oficial de marinha lá fode alguma coisa. Só vai comendo por fora. Também não o censuro, com uma saca de palha daquelas em casa…” Margarida ria-se, não porque gostasse especialmente de Matilde, mas porque era tratada com modos rudes pelas dondocas do pequeno almoço, como se fosse inferior por servir uma caneca de chã. Fazia gosto no que a amiga de circunstância lhe dizia.

Certo dia encontraram-se todas à mesma hora na pastelaria “ora que bons olhos te vejam dona Matilde! Então que tal vai a vida, cansativa, com tudo em casa para fazer?! O teu Manuel tem de arranjar outro negócio, tens de o fazer ver que te tem de dar uma vida melhor…olha para essa camisa, vê-se que já precisava de reforma” Enquanto falava ia olhando de esguelha por cima do ombro, a receber a aprovação da amiga subordinada que a tudo assentia. Afinal de contas se não fosse assim era ela o alvo, sem marido nem nada.

“Deixa lá estar o homem na fábrica, pelo menos assim sei que o que come é de casa…já o teu alimentasse muito por fora e depois…” Natália fez-se de despercebida quando já toda a gente se ria atrás das chávenas de café. Não havia cão nem gato que não soubesse do amor que o marido tinha para distribuir. Até à vizinha do ultimo andar tinha distribuído carinho. Mulher sozinha e viúva que Natália conseguiu escorraçar do prédio à força de infâmias.

“Depois o quê?” replicou Natália ajeitando o cabelo num trejeito de quem foi apanhada de imprevisto.

“Então depois fica doente com coisas estranhas lá de fora como aqui há uns meses…não se falou noutra coisa!”

Natália ajeitou-se na sua condição e proferiu um “são problemas de estômago hereditários” que despoletou a risada global.

Matilde pegou nas carcaças e saiu para a sua vida. Afinal de contas tinha mesmo a casa para limpar e os dois filhos ranhosos com a gripe aos cuidados da pobre mãe.

Para Natália o pequeno almoço acabou mais cedo. Porventura com uma subita dor de estômago apanhada no estrangeiro.

 

Esta é uma rubrica de contos. Cujo teor é totalmente ficcionado.

 

 

Conto #13

- O carro teve algum problema. Temos de ver com a marca o que se terá passado. Falei com a policia, vi as perícias. Não aconteceu nada que pudesse justificar o despiste.

- E tem a certeza que não poderá ter adormecido. Cansaço...

- Não. Não me parece. A minha esposa é muito consciente, muito controladora, nem quando vai no pendura se deixa adormecer. Não acredito.

- É que não entendemos. E foi uma sorte o outro condutor ter saído ileso.

Ouço passos e a porta a bater. Mais alguém a querer entender o que se passou. Passou-se que me perdi nas minhas ideias. No meu âmago vazio. Talvez tenha enlouquecido.

- Já só cá estás tu?

Olhou-me surpreso, pensava que estava a dormir.

- Sim. Descansa querida. Toda a gente quer respostas. Foi um acidente.

- Não sinto as pernas.

- Os médicos estão a fazer o melhor que podem.

Já ouvi estas duas frases em filmes e normalmente não quer dizer nada de bom.

- Bati no carro de alguém? Tenho ideia que quando tentei controlar o carro embati noutro.

- Sim. Foste contra um carro na faixa contrária.

Fechei os olhos com força. Queria apenas imaginar que estava a voar.

- Ficou alguém magoado.

- Arranhões.

- Juras.

- Sim. Apenas tu...

- Eu...?

- A tua coluna...bom, os médicos estão a fazer o melhor que podem.

Fez-se silêncio. Segurou-me na mão por um tempo que não sei determinar.

- Larguei o volante.

- Como assim.

- Sentia-me vazia. Larguei o volante e fechei os olhos. Senti que voava. Voltei a abrir os olhos porque buzinavam, tentei controlar o carro mas foi tarde demais.

- Podias ter acabado com a tua vida.

- Ás vezes sinto que não a tenho.

Apertou-me a mão com mais força.

- Tens...mas se não a encontras vamos procura-la juntos. Agora dorme mais um pouco.

Acordei com a voz do Manuel a falar com outra pessoa. Mantive os olhos fechados para que pensassem que ainda estava a dormir.

- Falou um pouco comigo. Passou-se algo com o carro que não soube explicar, um qualquer erro momentanio da viatura.

- Uma pena esta situação.

- E a coluna doutor.

- O estado não é promissor. Para já quando sair terá de usar uma cadeira...mas vamos ver o que se consegue com o tempo.

Escorreu-me uma lágrima pelo rosto...não sentia as pernas...mas sentia a vida outra vez.

 

Esta é uma rubrica de contos. Cujo teor é totalmente ficcionado.

 

 

Conto #12

Acordo com a satisfação de me saber viva. Nunca se sabe quando é que a meio da noite uma pessoa se vai.

A cabeça preenche-se de todos os problemas do dia e a dor no braço esquerdo aperta. Não tem nada, isso é tudo nervoso. Tem de controlar os nervos. Mas tem a certeza doutor? Tenho, tenho.

Quando acabo de calçar os chinelos já percorri na minha cabeça a lista de tarefas para o dia.

- Mãe dás-me leite?

- Sim, filha. A mãe vai já.

Um enjoo. Outra vez um enjoo. Esta merda de ficar enjoada como se tivesse acabado de comer uma mousse de chocolate inteira. Mas e os enjoos doutora, será que não é grave? Nas análises não mostra nada. Está tudo perfeito consigo. Felizmente não é. É, digo-lhe eu. E saio, saio do consultório depois de mais um aperto de mão. Depois de me saber permanentemente mal, um mau estar físico que ninguém encontra por mais exames que falta.

- Mãe posso levar as minhas calças azuis hoje?

- Podes filha.

Acorda sempre cedo, nem tenho tempo de acordar a cabeça. Mas também para quê, se quando acordo a cabeça só faço listas e mais listas e mais listas de tudo o que tenho de fazer. O que me é imposto e o que sobrecarrego em mim.

Arrasto-me até à cozinha e aqueço o leite. Penso no que vou comer e só sinto nós no estomago.

- Levas hoje as miúdas à escola? Tenho uma reunião antes da 9.

Há sempre mais uma reunião. Eu também as tenho mas já me habituei a encaixar as miúdas. Uma espécie de jogo tetris que me acompanha todos os dias.

Penso em como a vida era antes de elas nascerem. Penso em mim antes de ser o fantasma que sou hoje. Lembro-me de como me divertia quando saia à noite, de quando fumava, de puxar de cigarros uns atrás dos outros porque todos morremos e não vale a pena acautelar tudo.

Hoje até na morte durante o sono me lembro.

Até à pouco tempo ainda acordava para dar conta se as miúdas estavam vivas. Custava-me a ideia que se me apagassem durante a noite. De repente um dia parei de o fazer. Não sei se foi o corpo que deixou de acordar se fui eu que passei a ter saudades da minha vida antes delas nascerem.

Só a ideia me põe na merda. Que raio de mãe tem saudades da vida antes das filhas. A vida começa com elas não é.

Às vezes tenho saudades de quando era solteira e a vida era mais fácil. Disse um dia a uma colega de trabalho com quem me dou, quer dizer, dava, melhor. Devias era morder a língua quando dizes essas coisas, tens um marido que não te deixa e duas filhas com saúde. Sabes quantos de nós davam o cú e dois tostões para ter o que tu tens.

Desabafei e esqueci-me que o marido a tinha deixado e que nunca tinha chegado a ser mãe. Ela dava o mundo para ter a minha vida e eu, em certos momentos, dava um braço para estar uma semana na vida dela.

Gastar o dinheiro que quisesse nas maiores futilidades sem me lembrar do que as miúdas precisam ou da renda. Par poder inscrever-me em atividades divertidas em vez de fazer ginástica mental para descobrir que afinal o Yoga não é uma opção. Ter o comando para mim num horário civilizado. Poder acordar e tomar conta de mim sem pensar que há quem mais dependa.

Parece-me que tem aí uma depressão pós-parto mal resolvida. Tenho a ideia que havia de ir para casa descansar. Passar mais tempo com as suas filhas. E eu lá aceitei ir para cada umas semanas. Devia fazer caminhadas e ir buscar as miúdas mais cedo à escola para estarmos mais tempo juntas. Caminhei os dois primeiros dias. Depois comecei a limpar na casa tudo o que não tinha tempo para limpar nos dias normais. Depois o marido começou a pedir para tratar disto e daquilo e na segunda semana estava a trabalhar mais em casa que no emprego.

Parece-me que não funciona doutora. Isto até tenho descansado menos.

E lá fui trabalhar. A alvorada de madrugada. A filha que se levanta assim que ouve o meu despertador e a outra que arranco dos lençóis, uns dias com mais paciência que outros.

- Amanhã levo-as eu.

Ouço-o dizer antes de sair. Foi o mesmo que disse todos os outros dias deste mês que está a acabar, mas há sempre mais uma reunião e eu sou uma super mãe.

Esfrangalhada mas super. Afinal de contas consigo chegar ao que todos precisam, só não me chego a mim.

 

Esta é uma rubrica de contos. Cujo teor é totalmente ficcionado.

 

Conto #11

O final de dia avizinhava-se igual a todos os outros. A mesma viagem curta do trabalho para casa. A mãe que a esperava sentada na cama. A loiça no lavatório.

- A mãe hoje estava cheia de dores, não consegui tratar de nada.

- Deixe estar mãe, descanse.

E descansava. Na maioria dos dias com as dores fingidas e assentes na mentira menor que contava à filha todos os dias. A verdade inventada de que tinha passado mal o dia, deitada na sua cama, quando na verdade passava as tardes em conversa com as amigas que recebia em casa.

Na filha a empregada grátis que mantinha, aquela que havia de pagar sempre a graça divina que a mãe lhe havia dado por a ter trazido ao mundo.

Todas as linhas do dia iguais aos anteriores. A melhor amiga com namorado novo nem se via. Por isso o caminho era feito para casa. Fazia o jantar. Levava-o à mãe que o comia na cama a ver um qualquer programa de televisão que nunca se deu ao trabalho de querer saber.

Olhava com enfado para o lava loiças. Carregado de pratos e copos. Quantidade para qualquer mentecapto perceber que a senhora chorosa havia passado por tudo menos um dia difícil.

Mas que mais havia de esperar pela mãe que a deixava sozinha aos cuidados da senhora da padaria para poder seduzir o proprietário do stand de automóveis ao fim da rua. O mesmo com quem mantinha relações menos saudáveis e calorosas. Aquele que se mantinha casado com a melhor cliente do cabeleireiro onde trabalhava.

Secretamente Matilde sabia que a mãe esperava pelo dia em que aquele homem de cabeço inundado de brilhantina deixaria a sua mulher para se ocupar da sua mãe. Fazer dela uma senhora de casa, bem vestida, com empregadas e viagens de cruzeiro.

Tal nunca aconteceu. Por outro lado passou a ser uma visita frequente a sua casa a meio do dia. Quando chegava a casa da escola tinha a comida para aquecer numa pequena panela. Do quarto da mãe risadas. A voz de um homem que conhecia bem.

Margarida cresceu e o olhar daquele homem pouco sério começou a pousar nas suas formas. A mãe preencheu-se de ciúme e descarregou a cada segundo que a vida lhe permitia a sua pérfida maldade na filha que devia ter amado, mas que afinal nada mais era que um empecilho.

- Se não te tivesse tido o meu corpo era ainda hoje melhor que o teu. Ainda hoje sou mais mulher do que alguma vez serás. Consegues ver isso?

Margarida baixava os olhos. Fechava-se no quardo. Lia e imaginava o dia em que um príncipe encantado a salvava daquele suplicio.

 

Mas o tempo foi passando e Margarida percebeu que os príncipes querem casar com princesas, porque a maior fraude de todas é a Gata Borralheira. Ninguém quer a mulher que trabalha e limpa a casa. Os príncipes querem as mulheres vestidas de cores garridas que bailam e riem sem motivo nas festas. Querem as mulheres destemidas e sem responsabilidades.

Querem casar com boas famílias e não com uma mãe que engana a filha para fazer dela a sua empregada pessoal, numa procura de vingança não justificada.

 

O final do dia parecia igual. Mas o telefone tocou. Mal conseguiu ver o numero.

- Outra vez?! A sério?! Não passa de hoje.

O telemóvel avariava com frequência ultimamente. Estava ultrapassado, forrado com fita cola, mal se via o nome de quem ligava no visor. Mas também não precisava ler o nome de quem lhe ligava, as hipóteses eram poucas.

Cristina, a melhor amiga. Ligava mais de cinco vezes ao dia quando estava solteira. Ligava menos de uma vez por semana quando tinha alguém. Por isso, para estar a receber uma chamada dela é porque tinha levado com os pés…outra vez.

Márcio, chefe do trabalho. Um tipo intratável que exigia mais do que era obrigada a trabalhar. Mas cedia, afinal de contas a vida era feita de cedências. Pelo menos a de Margarida.

A mãe, tinha há muito deixado de contar as vezes que lhe ligava por dia. Atendia umas, outras usava o estado do telemóvel como desculpa para não atender.

 

Chegou ao Centro Comercial aborrecida, entrou furiosa numa loja de telemóveis, decidida a desfazer-se daquele pedaço de plástico lastimável.

- Quero comprar um telemóvel, mas quero uma coisa barata. Não quero gastar mais de 100 €.

O rapaz que a atendeu foi atencioso e encontrou-lhe logo uma boa solução.

- Quer que o ligue já?

- Sim, trate-me já disso por favor.

Tratou. Deu-lho para a mão.

- Veja se se adapta bem.

Tinha uma mensagem que dizia:

 

                Onde andas. Estou farto de te ligar. Queria beber um café contigo.

 

Marcou o numero mesmo antes de pagar. Fez sinal ao rapaz para aguardar só por um instante. Sentia como se estivesse fora do seu corpo, a ansiedade a tomar conta.

- Olá.

- Por onde andas? Estou farto de te ligar.

A imposição e a urgência.

- O meu telemóvel avariou e tive de vir comprar outro. Aliás estou a falar contigo de um telemóvel que ainda nem paguei.

Ambos riram.

- Então paga e vou buscar-te a tua casa.

 

Pagou e saiu do Centro Comercial mais depressa do que entrou. Chegou a casa sem se lembrar de ter feito o caminho. Subiu as escadas, aqueceu no micro-ondas o jantar da mãe, estendeu-lhe o prato e saiu, não sem antes a ouvir lá do quarto:

- Há loiça na pia por lavar.

Voltou atrás e disse da porta:

- Lavo amanhã. Não devo dormir em casa. Ou pelo menos devo chegar tarde.

 

Não sabia porque raio tinha dito aquilo. O Paulo era irmão da Cristina. Sempre houve uma tensão entre ambos. Uma tensão boa, daquelas que deixam coisas por dizer, por fazer. Ele namorava com alguém há anos e nunca se tinha passado nada. Ele insinuava-se. Ela não fugia. Quem sabe, pensava.

- O meu irmão é mulherengo. Só eu sei como ele engana aquela desgraçada, por isso, tira daí a cabeça.

E Margarida tirava. Seguia na sua vida cinzenta. Sempre mais escura e opaca perante a vida emocionante da amiga.

 

- Como vais?

Um beijo na face porventura perto demais dos lábios. Uma tentativa de perceber a recetividade daquela presa.

Posso ser uma presa por uma noite. Que tenho eu a perder.

- Estou bem. E tu?

- Agora melhor…com a tua companhia.

A caricia no rosto que tardava.

Foram a um bar perto do mar. Beberam um copo. Depois outro. Mais outro. Os suficientes para Margarida se sentir desinibida. Os suficientes para Paulo passar a mão pela sua nuca, para a puxar para si, para tomar conta da sua boca. Para que tudo se tornasse mais intenso por dentro.

- Vamos para tua casa?

Uma sugestão. Um pedido. Um desejo.

- Vamos antes para a praia. É diferente. É sensual…como tu.

Disse-lhe. Sussurrando ao ouvido como se estivesse dentro da sua cabeça.

Aceitou sem sequer se lembrar de dizer que sim.

Caminharam para a praia. O som dos mar, os lábios daquele homem por quem estava apaixonada há anos, as suas mãos a percorrer-lhe o corpo. Naquele preciso momento, no segundo em que as mãos quentes daquele homem lhe tocaram no sexo pela primeira vez esqueceu-se de tudo. Não havia uma mãe oportunista, não havia uma vida vazia, não havia uma amiga que apenas a procurava quando não tinha mais ombro nenhum.

 

Quando terminaram ele levantou-se.

- Devíamos ir embora, está a ficar frio.

- Pensava que íamos ficar aqui mais um pouco.

- Pois. Era boa ideia mas está frio.

E ela aceitou o frio apesar da noite quente que se fazia sentir.

Chegados ao carro sentia o gelo que ele emanava.

Percebeu o que não queria ver. Testou-o.

- Para a próxima podíamos ir para tua casa.

- Não me parece boa ideia.

- Porque a tua namorada está lá a dormir?

- Ouve Margarida….

- Eu sou crescida, já devia ter percebido…deixa-me em casa por favor.

 

Fizeram o caminho em silêncio. Mas à porta de casa de Margarida ele sentiu a necessidade de se explicar. Normalmente não o fazia mas esta era uma situação especial, afinal de contas iriam certamente encontrar-se mais vezes.

 

- Escuta Margarida, eu não quis…

- Magoar-me? (riu-se) Não magoaste. Tinhas um final de tarde para matar e eu tinha um serão de loiça e tédio. Ambos nos ocupámos. Foi divertido, apesar da areia. Não te preocupes, eu não sou o que tu gostavas e tu também não és a queca que eu estava à espera…por isso…amigos na mesma. Mas não repetimos isto…não me encheu as medidas.

- Ahhh, bom eu pensei…

- Espero não te ter magoado…mas sou muito honesta.

 

Saiu do carro e bateu com a porta mais confiante do que tinha entrado. Subiu as escadas com a promessa que tinha de ser diferente. Ia ser diferente. Rodou a chave a a voz da mãe não tardou.

- Afinal não passaste a noite fora!

A observação que deixa subliminar a ideia de que ele não a quis para a noite toda, como o vendedor de automóveis não a queria a ela para lhe aquecer os pés.

- Pois não. Não foi o que eu estava à espera.

- Amanhã lavas a loiça!

- Não. Amanhã levantas tu esse cu preguiçoso da cama e lavas a merda que tu e as tuas amigas cagarem cá em casa. Depois aproveitas e fazes alguma coisa para comer. A ver se te fazes gente alguma vez na vida.

- Não participas não moras debaixo do meu teto.

- Não te preocupes, para a semana já cá não estou. E suspeito que depois disso me vais ver pouco.

 

No sai seguinte levantou-se e tomou um longo banho. Vestiu a melhor roupa que tinha no armário. Comprou o jornal e procurou casas para arrendar.

A vida ia ser diferente. Com ou sem príncipe encantado.

 

Esta é uma rubrica de contos. Cujo teor é totalmente ficcionado.

 

 

Conto #10

A Dona Carmo é uma criatura de hábitos. Sei. Vejo-a da minha janela.

Podia deixar de ter relógios em casa à conta das suas tarefas.

Às cinco horas e trinta e cinco minutos toca o despertador. Desliga-o e levanta-se de uma assentada. Trata da sua higiene pessoal, que presumo passar por lavar a cara e os dentes porque toma banho antes de se deitar. Para além disso nunca sai da casa de banho enrolada numa toalha.

Sei porque às vezes deixa a cortina aberta e eu vejo, não quero, mas vejo.

Veste a roupa que preparou no dia anterior às vinte e uma horas e trinta e cinco minutos. Precisamente duas horas após ter-se sentado para jantar na sua sala imaculadamente arranjada. Com um naprom que posso apenas adivinhar sem nódoas. Janta as porções adequadas. Verduras, arroz, carne ou peixe. Acompanha sempre com chá quente sem açúcar. Suspeito que de camomila. Ajuda a descansar.

A Dona Carmo sai de casa arranjada e perfumada. Com os seus saltos nem muito altos nem muito rasos. Vai comprar as mercearias frescas e o pão do dia. A cesta preenchida sempre na mesma medida. Saí de casa às nove horas da manhã. Conheço o bater da porta velha do prédio. Das que ainda são de ferro verdadeiro.

A Dona Carmo veste sempre cores claras e a condizer. Verdes claros, cremes ou rosa pastel. Encontra sempre a echarpe adequada. O seu colar de perolas sempre alinhado em torno do pescoço como se fizesse parte da própria pele.

Cumprimenta os vizinhos com a educação necessária. Não se alonga com conversas que não incluam o bem estar do prédio, não quer saber da vida das vizinhas e caso seja questionada tem algo ao lume para atender.

Nunca tem. Sei porque cozinha o almoço às 11 horas para estar na mesa às 12 horas. Todos os dias. Quando não come a horas perde a fome. Já vi. Um dia tocaram à porta para vender alguma coisa, tinha acabado de se sentar. Voltou à mesa para levantar toda a loiça. A comida para o lixo.

Nesse dia passou o resto das horas sentada no sofá com a televisão desligada.

A Dona Carmo faz-me companhia sem saber. Entretém as minhas horas.

 

A minha mãe senta-se todos os dias a olhar pela janela. Em frente um prédio devoluto. Parece acompanhar a vida de alguém que já lá viveu e hoje não está neste mundo.

A minha mãe sorri para a janela. Todos os dias acorda às 6 horas da manhã. Veste a sua roupa, a que deixa arranjada em cima da cama, sempre em cores pastel.

A minha mãe senta-se e vê uma vida fora da janela.

 

Esta é uma rubrica de contos. Cujo teor é totalmente ficcionado.

 

Conto #9

Bati-lhe à porta. Repetidamente bati à porta. Ouvi-lhe os passos mais leves, estava descalça, não trazia os tamancos ortopédicos de sempre. Aqueles cujo som se prendeu à minha memória e me causavam arrepios na espinha. Os que antecipavam o som da sua voz amargurada.

Bati-lhe à porta.

“Sei que estás em casa, abre”

Abriu.

Não a deixei falar. Bati-lhe a ela. Bati-lhe com mais força do que alguma vez bati na porta.

Caiu.

Caiu no chão sem se defender. Pus-me em cima dela e bati-lhe até me cansar. Bati-lhe por todas as vezes que me ameaçou. Por todas as vezes que me quis penalizar. Por todas as vezes que aproximou a boca do meu ouvido e disse que a PIDE havia de vir cá a casa e acabar com a farsa que era a minha vida.

Tinha andado embeiçada pelo meu marido. Ele sem lhe dar trela. Ela convencida que era de uma família melhor. De uma família irrecusável.

Ele recusou.

Apareceu comigo passados alguns anos. Desta vez ele embeiçado por mim e eu por ele. Diziam que o casamento devia ser com um homem bom, o amor era para os filmes e as paixões só serviam para nos arranjar problemas.

Consegui tudo isso.

Comprámos a nossa casinha num prédio calmo. Eu gravida e um enxoval a ser completo peça a peça. Estava o bebé para nascer quando me batem à porta. Era ela, tinha casado à pressa. Comprou casa ao lado da nossa, era nossa vizinha e parecia-lhe bem que ficássemos amigos.

Todos sabíamos que o pai andava lá pela PIDE e todos tínhamos medo. Não havia quem não soubesse que os vizinhos de que não gostava às vezes tinham visitas.

Soube-se meses mais tarde que tinha perdido o bebé, uma complicação qualquer. A amargura ficou pior.

“Havemos de ter outro”, disse. Eu acenei que sim com a mão em frente da minha barriga. Bem segura ao meu.

O menina nasceu. Chorava de noite.

De dia vinha visitar-me. Dizia-se cansada. Não dormia porque a bebé chorava a noite inteira. Não descansava. Não engravidava. Dizia-me que não conseguia engravidar porque não descansava.

Havia de arranjar maneira de calar a menina. Começava a dar a ideia que punha a criança a chorar para o meu marido falar com os comunistas.

Parecia-lhe que havia de ter de falar com o pai para a ajudar neste assunto.

Um dia. Já a menina tinha uns dois anos vi-a a observar-nos da janela. Os olhos carregados de raiva. Esperou que subíssemos as escadas e chamou-me.

“Ó Rosa, pode vir aqui a casa que tenho uma coisa importante para lhe dizer?!”

Fui.

“Se a miúda me chora outra vez durante a noite vou chamar a PIDE, ouviste?! E sabes que vêm, não sabes?!”

Assenti.

Sabia que vinham. Da mesma forma que sabia que a minha menina não tinha feito um som durante a noite e que o que a havia incomodado era a sua existência.

 

Por isso bati-lhe. Bati-lhe até me cansar. Bati-lhe naquele dia 25 de Abril em que se distribuíam cravos. Uma revolução de paz.

Eu bati-lhe, cheguei à minha paz em cada bofetada que lhe dei.

“Vai-te embora, aqui não é o teu lugar. Devias estar no inferno e agora já não há mal que nos possas fazer.”

Fechei a porta e deixei-a no chão. Despenteada e com a cara marcada das bofetadas que lhe dei. Uma covarde, nem se defendeu. Usava e abusava do mal que sabia que podia infligir pelo poder do pai.

 

Todos os meses de Abril sorrio. Todos os meses de Abril me lembro das bofetadas que lhe dei. De deixar de viver em medo.

Todos os 25 de Abril compro cravos vermelhos, ponho no centro da minha sala e agradeço o bem que nos foi feito.

 

 

Esta é uma rubrica de contos. Cujo teor é totalmente ficcionado.

 

 

 

Conto #8

Aí filha às vezes mais vale dizer-lhes o que querem ouvir. Respira profundamente como quem pensa bem no que vai dizer. Olha e outras mais vale dizer-lhes o que precisam de saber. É da maneira que nos moem menos. Que pensam que são espertos e nós continuamos parvos.

Dizia a minha avó, sentada na cadeira velha da cozinha velha, quase tão velha quanto ela. O lenço preto na cabeça. A barriga pousada nos joelhos. O estalar da vagem e o som das ervilhas a cair no alguidar.

Está tempo delas e eu não gosto cá daquelas modernidades congeladas. Lá na terra apanhávamos e ia para o prato. Tínhamos saúde é o que era.

A minha avó que sabia de tudo e não sabia ler. A minha avó que se sentava na cadeira velha, da cozinha quase tão velha quanto ela.

Devia ir lá para casa mãe, ficava melhor.

Tantas vezes ouvi a minha mãe a querer levá-la e ela que não, que não se sentia bem noutra casa que não fosse a dela. E ela que depois me dizia, o teu pai não me quer lá. E eu não me quero a comer à mesa dele sem vontade. Já me basta o Natal. Tão boa moça a tua mãe. Havia de me arranjar aquilo filha. Graças a Deus não te assemelhas aquele animal.

Aquele animal que era o meu pai. O que era capaz de a levar ao colo escada acima escada a abaixo, o que a levava ao hospital a meio da noite e não dormia sem noticias. Mas aquele que lhe roubou a filha de casa. Trabalhava ao escritório mas não era doutor. Não era advogado nem médio. Ninguém sabe o que é que aquilo faz. Sentasse para ali, faz trabalho de mulher, à secretária, vamos a ver e um dia destes ainda lhe damos com uns sapatos de salto e umas collants de vidro.

A tua mãe podia ter casado com um homem com “h” grande. Mas enfim. Essas coisas do coração. Merda mais o coração. O que interessa é a vida. Quando a renda de casa está em atraso quer lá o coração saber quem nos aquece a cama. Quando nos apetece comprar uma prenda e faz falta para a luz queremos nós lá saber se nos agrada o cheiro à noite. Se ressona ou se peida. Paga. Isso é que interessa.

No meu tempo um homem era o que sustentava. A mulher tratava da casa. A mulher tratava dos filhos. E vocês o que vos aconteceu? Metidos numa porcaria qualquer com estranhos porque a minha filha, tinha de trabalhar.

A minha avó, sentada na sua cadeira velha, na sua cozinha que às vezes parecia mais velha que ela, presa no encanto de uma vida que não proporcionou à filha mas na ideia do que podia ter sido, alimentada a novelas, iludida, a confundir a realidade.

Às vezes tenho saudades das conversas sem sentido da minha avó. Até de quando ofendia meu pai. Sentada na sua cadeira velha. Mesmo quando o ofendia com ele sentado na mesma cozinha velha, esquecida de que ele lá estava. Ele sorria-lhe, desculpava o mau trato, lembrava-se que ela era velha e que um dia, de Deus quisesse daí a muito tempo podia ser a vez dele. De se sentar numa assoalhada com cheiro a mofo. Na sua cadeira velha. A dizer o que lhe passava com a ideia, com a liberdade sem filtro que a proximidade da morte nos trás.