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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Quero viver para sempre.

Assumo. Quero viver para sempre. Quero que o para sempre seja suficientemente longo para ver o corpo enquerquilhado, velho, de bengala até. Ou cheio de força, resistente, com maratonas.

Não importa. Assumo. Quero viver para sempre. Quero ser velha de peles cheias de pregas. Quero ver as mãos com os dedos entorpecidos pelas artroses. Quero ter as manchas das células mortas, resultado do tempo que passa.

Marcas de uma vida que se vive. Marcas dos anos que passam por um ser.

Dizem que podemos viver até aos 120. E eu espero que assim seja. Mandem-me fazer o que for. Digam, corro, salto, levanto pesos, nado. O quê?

Assumo, quero viver para sempre.

Abro os jornais e morreu alguém novo.

Fulminante, dizem.

E eu fico preenchida pelo medo. Porquê?

Porque motivo. Como. O que falhou nesta vida para se sumir tãp cedo.

Paragem cardio respiratória. Dizem.

Mas como. Mas porquê. Faz desporto. Como é que lhe acontece uma coisa dessas.

Não penses muito nisso. Atraí coisas más.

Pois atraí.

Ao almoço uma pontada debaixo do braço direito. Mas que raio de dor. A que se deve isto.

Não há resposta. Uma qualquer dor muscular e uma cabeça assustada que tem medo de um fim sem aviso.

Assumo. Quero viver parta sempre e assusta-me o fim sem mais nem menos. O fim que não deixa organizar as gavetas antes de partir. O fim só porque sim. O fim que não sabemos a que se deve. Limitamo-nos a partir.

Nunca pensei muito nisso, ninguém cá fica para compota. Dizia o Ruy de Carvalho em entrevista. E tem razão. Mas a ele já lhe contam mais de 90. Se calhar é porque não pensa nela. Não perde tempo com o que não interessa. Avança sem olhar para trás. A vida dos outros a cada um compete. Cada um tem o seu problema, dizia o Salvador.

Pois é, cada um tem o seu problema.

E eu fico assim. Com medo. Assustada por um fim que não controlo. Digo para mim que é não passam de pensamentos de merda. Qua é lixo mental. Que tenho de me preocupar com os minutos e não com os anos. Digo que não volto a abrir o Correio da Manhã. Sempre carregado de noticias sensacionalistas.

Todos os dias morre gente. Não podemos morrer nós também para lhes fazer companhia.

Temos de nos afastar das pequenas coisas que nos assombram.

Inteligência emocional dizem. Pareço ter estupidez emocional, que me verto em lágrimas com fotografias de Fátima onde mães percorrem o caminho de joelhos com os filhos ao colo.

Não condeno crenças. Cada um sabe o que o levou ali.

Perco-me em ideias desconexas. Não alcanço o fio condutor. Escondo-me dentro de mim como um animal assustado e espero que o interior se comporte à altura. Peço que não existam azares. Rogo que a alegria se aposse de mim e afaste os pensamentos derrotistas que me assoberbam em alguns dias.

 

Porventura mais que uma folha

- …olhe para a folha, mas não basta ver se é verde. De que verde é? É escuro? É claro? É homogéneo? Veja os veios. Concentre-se na folha.

 

E eu paro a meio da Avenida da Liberdade com as palpitações a saltar. Encho a barriga como um balão e expiro até que o estômago se cole às costas. Paro de frente para a árvore e procuro-lhe a forma de acalmar a minha agitação.

De que cor são as tuas folhas?

Verdes. Sei. Mas que verde.

E olho-a. Encontro a folha. Concentro-me nela como como se todo o Universo movesse mais devagar.

Tens de parar. Tens de a contemplar.

E contemplo. A respiração acalma, os batimentos do peito ficam mais suaves e a confusão dissipasse. Como uma nuvem que se limpa do céu.

Respira. Contempla. Tenta.

A folha é viçosa. É verde escura como manda a primavera. Cheia de vida. Preenche o tronco de uma árvore que se sabe naquela chão há décadas. É bela. E agora faz parte de mim.

Ponho-a no bolso. Fica guardada só para mim.

 

Desço a Avenida da Liberdade. Agora já vejo quem passa. Vejo-me a mim. Vejo as montras. Vejo o meu redor sem névoa, sem confusão.

 

Sem tempo

Já não conto as horas pelo tempo que marca o relógio. Registo-as pelo atraso dos meus dias, pelas tarefas pessoais e profissionais que tenho por fazer. Nenhuma tarefa dentro do agendamento, todas as linhas a vermelho. Não sigo uma linha de raciocínio, não há raciocínio, há um misto de reações ansiosas onde me lembro do que já devia ter feito e ainda não fiz.

Há um cansaço que me assalta porque quando nada estou a fazer penso no que está em atraso, no que ainda falta, no que me espera e penso que não consigo. Que não aguento mais. Que mando tudo ao ar. Que pego no miúdo e no marido, que íamos para uma ilha numa cabana barata. Que bebíamos leite de coco e eu fazia pulseiras à beira mar.

Talvez um negócio de vídeos de fitness na internet.

Mas antes tinha de chegar ao fitness para depois alguém acreditar nos vídeos.

Escrever um livro em inglês, ser publicado nas américas onde qualquer um que tenha a sorte de cair em graça vende um milhão, ou meio que seja, e deixa de ter os dias iguais. Passa a competir consigo mesmo e gere a tarefa de ter uma ideia em vez das mil e uma que regem o meu dia.

Penso e repenso nas horas que tenho para fazer o que caberia em 48 horas quando o dia foi agraciado com apenas 24.

Sem tempo.

É assim que me sinto, a ver o tempo passar depressa porque já o tenho gasto sem sequer lá chegar, sempre ansiosa pelos minutos que estão para vir porque com eles chegam as tarefas que me sugam o ar dos pulmões. Não sei porquê, um sentido de responsabilidade excessiva, uma falta de confiança, uma vontade ine2quivoca de que a vida fosse diferente. Que passasse os dias como a loira dos vídeos de ginástica, entre risinhos histéricos e forçados, calças de licra de cintura baixa e exercícios para as senhoras em casa se sentirem mais sensuais nos seus dias iguais em que vão para o escritório, em que acabam as tardes a comer um bolo cheio de creme porque os nervos lhes consomem a confiança que lhes foi depositada pela moça de cabelos loiros e esvoaçantes numa qualquer praia americana.

Estou sem tempo.

Estou sem paciência.

Com a dificuldade de me acreditar capaz.

 

Fora de horas #30

Há dias em que era capaz de comer o mundo.

Especialmente se o mundo for feito de bolos, bolachas, batatas fritas e Cheetos.

Há dias em que era capaz de comer o mundo e sento-me aqui a olhar para a minha garrafa de água, a segunda que tenho para beber, e tento convencer-me a não descer as escadas para comprar um bolo na pastelaria mais próxima.

Mas é difícil, porque nestes dias em que o cansaço se acumula apetece mais. Nestes dias em que a ansiedade dá a mão ao cansaço só me apetece comer o mundo em porcarias antes que ele acabe assim puff de um momento para o outro.

Estou aqui e estou a descer.

Estou aqui e estou de bolo na mão.

Até lá vou mandando água guela abaixo a ver se me sabe a glacé de limão e me passa a vontade.