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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Quando o secundário é o pico da nossa vida

Nunca fui uma pessoa brilhante, com estrelinha. Nunca fui a aluna favorita, a colega que todos gostavam, a miúda mais gira ou a melhor no corta mato. Aliás, até aos meus 25 anos contaram-se pelos dedos das mãos as vezes que corri. Não gostava, não queria e nem para apanhar o autocarro em fuga me dava ao trabalho.

Quando eu andava no secundário, com as minhas jardineiras de bombazina pretas, a minha camisola mais curta que deixava ver um pouco de pele, mas apenas a bastante para não se perceber que afinal não havia abdominais definidos. Os meus ténis sujos, o meu penteado de sempre, com o cabelo amarrado, o dossier debaixo do braço e um estojo de pano. Quando eu andava no secundário ninguém dava nada por mim. Provavelmente acabaria numa caixa de supermercado, a fazer camas em hotéis, nas limpezas. Sempre fui uma aluna mediana a tudo. Nunca me dediquei o suficiente a nada. Mas gostava dos livros. Gostava da biologia. Detestava a matemática e fugia da química.

Quando eu andava no secundário nem eu dava nada por mim. Perdia-me em sonhos na sala de aula. Imaginava os dias em que já não iria haver secundário, em que eu era uma professora de educação física, em que eu era uma veterinária, em que eu acordaria com uma voz brilhante e seria cantora, quem sabe atriz. Pensava nas hipóteses que a vida podia ter se arranjasse dois empregos e fosse estudar para Coimbra.

Gostava de ter estudado em Coimbra.

Hoje penso que se o meu filho me diz que quer ir estudar para Coimbra me mudo. Que vou atrás dele e que me escondo a cada esquina não vá dar-se o caso de não o tratarem bem.

Quando eu andava no secundário passava por entre os pingos da chuva, não era miúda de grupos e queria apenas que não me chateassem a cabeça. Dava-me com quem estava e seguia à minha vida.

Mas nessa altura haviam sempre os alunos de que se esperava mais. Eram bons alunos, eram caricatos, eram miúdas giras que tinham cadernos irrepreensíveis, sempre com as cores certas e as notas adequadas. As que tinham um corpo de modelo, as que corriam corta mato, as que eram as melhores no vólei e tinham cabelos longos e fartos. As que até já tinham viajado. As que tinham vintes a mais do que um exame. As que se vestiam a desafiar as regras. Os que iam ser jogadores de futebol. Os que ninguém achava nada. E os que ninguém dava nada.

Depois a escola acaba, veio, para alguns, a universidade. Para outros o trabalho, porque não tinham notas para a área que queriam, porque iam experimentar ganhar algum para tirar a carta e juntar dinheiro para as propinas.

A seguir uns acabaram cursos que não serviram para nada, outros tornaram-se médicos, engenheiros ou enfermeiros, outros nunca se chegaram a inscrever, continuaram a trabalhar.

A vida foi caminhando e os sonhos foram-se concretizando para alguns. Para outros ficaram na prateleira como aquele livro que compramos para ler e que só vê pó. De quando em vez olhamos para ele e dizemos “um dia leio-te”.

Uns tiveram filhos. Outros viajaram. Outros ainda andam à procura do que fazer com a vida. Agarrados a canudos que não servem para nada e à espera daquela oportunidade que não há meio de aparecer. Uma vida suspensa.

Há ainda quem tenha emigrado.

Vidas completamente diferentes. Muitas totalmente diferentes do que tínhamos imaginado.

E eu olho à minha volta e penso que afinal não devia ter tido preocupações. Que afinal as coisas se compõem. Que o melhor é deixar que o pico da nossa vida ainda esteja para vir.

Porque depois do secundário há toda uma vida pela frente. E quando essa fica aquém sentamo-nos zangados e a pensar em tudo o que seriamos um dia e que afinal a vida não deixou ser. Uns porque a sorte não ajudou, outros porque acreditaram que a vida sopra sempre a favor. Mas uma cara bonita não serve para tudo. E o puto que dava bons toques na bola nem sempre cresce para ser o Cristiano Ronaldo.

 

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