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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Os quarentões super hiper mega fit

Não tenho nada contra as pessoas fit. Até gosto bastante de gente que se mantém em forma. Não tenho nada contra as pessoas super hiper mega fit. Apesar de achar que às vezes tendem a tornar-se um pedaço entediantes considerando que qualquer conversa que se tente entabular ira, invariavelmente, desaguar em treinos de distância, treinos de alta intensidade, agachamentos, suplementos e outras tretas similares. 

Não tenho, de forma alguma, o que quer que seja contra os quarentões e as quarentonas - malta na casa dos quarenta. Não tenho até porque daqui a não muito tempo também farei parte desse gangue sem retorno e como tal, nada a obstar.

Agora, quando falamos de pessoas na casa dos quarenta que depois dos quarenta se tornaram super hiper mega fit, aí já entramos noutra conversa. 

Convivo bem com aqueles que sempre praticaram desporto e hoje é algo perfeitamente natural, falam disso com outros que mantém o mesmo interesse ou quando questionados. Mas esta malta é toda uma outra história. Falamos de gente que passou as primeiras quatro décadas da vida à base de pastelaria, chanfana, cozidos e imperiais e que hoje, depois de se lhe ter passado qualquer coisa pela vista, fez uma inscrição no ginásio, descobriu as corridas, foi apresentada aos batidos verdes, recebeu toda a evangelização da droga que é o açúcar e não sabe pregar outra coisa que não seja relacionada com o ser fit.

Falamos de gente que alimentou os filhos a rissóis e bifes-com-batatas-fritas-come-e-não-me-chateies-que-já-não-sei-que-faça-para-tu-comeres e que hoje quando vê alguém a dar um rebuçado a um filho se sente na obrigação, se não mesmo no dever, de mandar bitaites quanto às escolhas daqueles pais porque o açúcar é uma droga e os miúdos ficam viciados e depois não querem outra coisa e os diabetes e mais não sei o quê.

Esta malta que foi criada a calipos e coca-colas e peta zetas e caramelos de agarrar aos dentes. Até parece que o país está cravejado de obesos.

A obesidade é, se margem para duvida, um problema mas ainda não falamos da maior parte da população. 

Perderam uma mão cheia de quilos e agora sabem mais dos iogurtes do LIDL do que o tipo que os inventou. Bebem batidos de proteína whey e tendem a tentar policiar a vida alimentar dos outros.

Tornam-se maçadores porque parecem ter perdido a capacidade de falar de outra coisa. Isto é gente que não é pluricompetente no campo do conteúdo. Naquelas cabeças só é possível um tema de vida de cada vez.

Quando entraram para a faculdade aquilo é que era. As cadeiras, os professores, a tuna, as praxes, a farpela que essa malta usa.

Depois entraram para o primeiro emprego. Único tema de conversa. Casamento. Vestidos, convidados e bouquets até uma pessoa deitar arroz pelos olhos. Filhos. Os que lhes ocupam a maior parte da vida de conteúdo. A gravidez, o parto, a surpresa, as noites mal dormidas, os vomitados, as fraldas cagadas, as asneiras, a escola, a mudança de escola, os colegas, a adolescência. Quando chegam a esta parte os filhos começam a caminhar para ter gradualmente vidas mais independentes e então o olhar para o espelho diz que está na hora de fazer alguma coisa por si abaixo.

Momento ao qual tiro o meu chapéu. Alguém pegar em si e tentar melhorar-se é sempre de louvar.

O problema é que este é um tipo de ser humano que depois persegue o outro. É uma desgraça uma pessoa tentar comer duas bolachas com pepitas de chocolate na cafetaria. Fica a saber todo o mal que podem fazer e todo o bem que contem aquele momento fica amargurado por saber que vão ficar presas nos meus abdominais e que podem estar a alimentar células más no meu interior.

Depois vão à sua vida, pregar para outra freguesia, quem sabe tirar mais uma foto no fim de um treino para pôr no facebook e no instagram.

Sempre o mesmo hashtag

 

#noexcuses #nopainnogain #ageisjustanumber