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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Fora de horas #84

Se escrevesse por apetecimento provavelmente escrevia a tempo inteiro. Deixava-me estar por casa, distraída e descontraidamente sentada num escritório repleto de livros, esperava que a vontade chegasse, que a ideia se iluminasse e então martelava os dedos no teclado. Se escrevesse por apetecimento garantia que o dia corria como me apetecia e só escrevia o que me apetecesse. Há dias em que apetecem coisas parvas, há dias em que me apetecem sentimentos, há dias em que apetecem histórias inventadas, aquelas em que porventura desempenho na minha cabeça o papel de um dos personagens e vivo por instantes uma vida oposta à minha. Umas vezes melhor que a que tenho, mais abastada, mais descasada, outras mais infeliz, alimentando assim o meu sentimento de que as coisas não merecem tantos queixumes.

Se escrevesse por apetecimento não fazia relatórios, não cumpria dias, não catalogava textos. Escrevia apenas. Mas a cabeça pede organização e essa organização diz que se tem de saber do que se escreve, estipulo dias para escrever aquilo a que chamo de crónicas e o que outras chamaram de nada. Outros dias escreve histórias a que dou o nome de contos. Alguns chamaram tinta perdida.

Hoje, fosse este um momento de cumprir com promessas interiores, teria publicado um conto. Ou uma história a que chamo de conto. Mas o filme de terror ainda está demasiado vivo, e as histórias que me assomam a mente envolvem chamas e famílias perdidas. Preferi não escrever. Preferi esperar que com o passar dos dias histórias mais felizes, de dias normais, me assaltem à mente.