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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

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Fora de horas #83 - Uma tragédia e um filão para todos

Não há palavras que descrevam a infelicidade que o nosso país tem vivido nos últimos dias. Não é preciso descrever sentimentos, os números e as imagens bastam para todos sabermos que o que aconteceu nunca devia ter tido lugar. Podem haver culpados, pode haver mão da natureza, pode ter sido força divina. Pode ter sido tanta coisa que ninguém consegue confirmar. Mas nada disso muda o fim de mais de 60 vidas.

Depois há o filão, posts e posts, de condolências, de arrepio, de sentimentos, de culpas, de fotografias. Todos têm. Todos temos coisas a dizer sobre esta tragédia. Quem não tem, arranja. Afinal de contas não se passa um acontecimento trágico destes sem se deixar o seu bitaite à face da terra. Somam-se a estes as denominadas “reportagens” que de jornalismo têm pouco e de sensacionalismo têm muito. Uma mulher especada ao lado de corpos inocentes espalhados num chão que percorreram sem ver, em busca de uma salvação onde apenas havia morte.

Que mais há a relatar. Não é possível que se tenha alguma sensibilidade para com o tema? Parece que não. Porque toda a gente sente muito, mas toda a gente está longe que chegue, com família a salvo, toda a gente está afastado quando baste para achar muita coisa e apoiar com bitaites soltos. Posts e reposts no facebook, culpados e chamas, chamas e culpados. O ocasional relembrar do numero de inocentes perdidos, como se o numero já não fosse sobejamente conhecido por todos nós, em Portugal e além fronteiras.

Não coloco no mesmo saco o jornalismo sério. Não coloco na mesma bitola quem partilha informações para ajudar. Mas coloco no mesmo saco do “olha para mim que sinto tanto” o ridículo de quem vai ao facebook colocar uma banda preta de “luto” em cima de uma fotografia sensual, de uma fotografia de alegria, com sorrisos rasgados e espalhafato. É o deixa cá mostrar que também estou muito sentida/o, logo depois de pôr um emoji com lágrimas no post do meu amigo e seguir à minha vida fumando o seu cigarrinho.

É uma tragédia, seguida de um filão que todos aproveitam. Até eu, neste momento em que escrevo sobre o que me passa o dia a aparecer à frente.

Se senti a tragédia? Senti. Especialmente com a história da criança. Sofri a imaginar o que poderá sentir quem sai de um carro numa estrada em que passa todos os dias, para descobrir que a vida vai acabar porque apesar de estar num espaço livre está encurralado pelo inferno. Depois desliguei a televisão, beijei os meus filhos, egoistamente agradeci a Deus por tê-los comigo, mudei o canal e deixei que vissem os desenhos animados. Afinal de contas a vida deles pode continuar inocente.

 

(e sim, contribui, só não achei necessário falar sobre isso)

 

 

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