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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Fora de horas #45

Está sempre à espreita. Pode estar a qualquer esquina, esquivamo-nos, rimo-nos dela, pensamos que vem mais tarde. A visita que adiamos todos os dias e que pedimos aos santos para que venha mesmo no fim da linha. Quando não há mais nada para ver, para viver. Quando as articulações já só rangerem, quando os filhos estão criados, quando já só vemos os netos de quando em vez porque querem é estar com os amigos. Quando os que nos acompanharam e preencheram os momentos já a receberam e partiram, para um qualquer sitio melhor, ou para sitio nenhum, desfazendo-se em fragmentos de nada. Afinal de contas pouco somos mais do que isso quando os dias perdem a luz daquilo a que chamamos vida.

Temo-a. Rogo-lhe que chegue tarde e sem incomodar ninguém. Que nos encontremos as duas num final de dia bom daqui por uma centena de anos, eu grisalha, um rosto longe da juventude que hoje conhece. Eu velha e de cajado, o terceiro apoio para as pernas que insistem em resistir. E satisfeita de uma vida preenchida. Eu sentada num relembrar de toda a vida boa que passei. Eu a desconsiderar os problemas que hoje parecem engolir-me. Eu a fazer a compilação da minha vida à frente dos meus olhos. O filho a crescer, eu a chorar no seu casamento, no fim de curso, em todas as pequenas e irrisórias vitórias. Irrisórias para os outros. Maiores que bolas de ouro para mim.

Eu satisfeita digo-lhe “então vieste?! Senta-te, bebe um chá, as bolachas são de ontem mas ainda estão boas, mas para ti só o pior que tiver para oferecer. “

E parto, velha e ressequida como uma passa, com o corpo gasto por toda a vida esbanjada com ele.

Custa-me a morte dos novos. Corroí-me. Assombra-me. Assusta-me. Amedronta-me. Porque morrem os novos? Porque partem com tanto por viver.

Hoje acordei de manhã para saber da morte da Ex-ministra da defesa espanhola. Pouco me importa o que viam que tinha sido. Importa-me que era uma mulher nova, com 46 anos. Importa-me que era mãe de uma criança, aquela que trazia no ventre no dia em que tomou posse do cargo. Importa-me que a vida lhe tenha sido curta. Importa-me que não veja a criança que trouxe ao mundo crescer. Importa-me que a vida tenha acabado a meio caminho.

Importa-me que não tenha chegado a velha, seca como uma passa, com uma chávena de chá na mão a receber uma visita. Bolachas com cheiro a ranço para a maldita, para ela sempre o pior.