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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Dia da Mãe

Ainda não decidi de sou avessa a estas coisas dos dias ou se até gosto.

Aposto que quando chegar o dia em que venham prendas da escola desenvolva um sentimento diferente. O feito de uma folha rabiscada com todo o amor para o sorriso daquela que não precisa de prendas, bastam os abraços e os beijos. Mas esses não se guardam, não cabem numa caixinha de memórias. Evaporam-se no tempo, nos dias, nos momentos. Fazem parte de segundos em que a pele se toca e a vida ganha o sentido esperado. O rosto que se encosta quase dentro da pele, quase parece que nunca está próximo que chegue. O nariz que procura na nuca o cheiro do bebé que foi colocado nos braços.

Os dias são marcados pelo consumo dos bens. Que só há lembrança se se fizer acompanhar de um perfume de marca. De um colar, de uma blusa ou um passeio ao Gerês. “Foi o meu filho que me deu!”

Que o meu filho me dê abraços, que se sente comigo na sala, hoje e em velha. Que venha comigo ver as histórias recentes e as mais antigas. Os vídeos de um miúdo a fazer trapaças na varanda. De uma mãe que faz voz de má quando quer rir.

É dia da mãe. Dia de amar quem nos põe no mundo e eu perco-me a pensar no sentido que ganha quando trocamos de lugar com quem nos trouxe ao mundo. Que tudo ganha outro sentido. Que é bom dizer às amigas no café “foi o meu filho que me deu!”. Que é bom pendurar no escritório um desenho preparado com o carinho e a inocência crua de que só as crianças são capazes.

No radio toda o Michael Buble, diz que guarda toda as cartas que escreveu. Eu escrevo para ti. E guardo o que escrevo. Esforço-me para guardar para ti o que é só nosso. Porque por mais palavras que conheça não consigo transforma-las na profundidade do que sinto quando estou perto de ti.

A flor mais linda. O fruto do meu ventre. O meu amor mais profundo, mais visceral, mais animal. O meu amor maior. Maior que a vida. Do tamanho do universo.

Não sei se sou avessa às coisas dos dias. Gosto que haja um dia especial para te lembrares mais de mim. Não hoje, que me procuras como se procura a água no deserto. Mas um dia, quando o teu mundo for maior que eu e marques na agenda para te lembrares daquela que te trouxe ao mundo. Darei valor nesse dia. Porque te lembrarás de mim. E vamos almoçar os dois. Dás-me um abraço e eu guardo na caixinha o perfume. Já que o abraço se esfuma no tempo. O tempo de vir outro dia da mãe.