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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Conto #9

Bati-lhe à porta. Repetidamente bati à porta. Ouvi-lhe os passos mais leves, estava descalça, não trazia os tamancos ortopédicos de sempre. Aqueles cujo som se prendeu à minha memória e me causavam arrepios na espinha. Os que antecipavam o som da sua voz amargurada.

Bati-lhe à porta.

“Sei que estás em casa, abre”

Abriu.

Não a deixei falar. Bati-lhe a ela. Bati-lhe com mais força do que alguma vez bati na porta.

Caiu.

Caiu no chão sem se defender. Pus-me em cima dela e bati-lhe até me cansar. Bati-lhe por todas as vezes que me ameaçou. Por todas as vezes que me quis penalizar. Por todas as vezes que aproximou a boca do meu ouvido e disse que a PIDE havia de vir cá a casa e acabar com a farsa que era a minha vida.

Tinha andado embeiçada pelo meu marido. Ele sem lhe dar trela. Ela convencida que era de uma família melhor. De uma família irrecusável.

Ele recusou.

Apareceu comigo passados alguns anos. Desta vez ele embeiçado por mim e eu por ele. Diziam que o casamento devia ser com um homem bom, o amor era para os filmes e as paixões só serviam para nos arranjar problemas.

Consegui tudo isso.

Comprámos a nossa casinha num prédio calmo. Eu gravida e um enxoval a ser completo peça a peça. Estava o bebé para nascer quando me batem à porta. Era ela, tinha casado à pressa. Comprou casa ao lado da nossa, era nossa vizinha e parecia-lhe bem que ficássemos amigos.

Todos sabíamos que o pai andava lá pela PIDE e todos tínhamos medo. Não havia quem não soubesse que os vizinhos de que não gostava às vezes tinham visitas.

Soube-se meses mais tarde que tinha perdido o bebé, uma complicação qualquer. A amargura ficou pior.

“Havemos de ter outro”, disse. Eu acenei que sim com a mão em frente da minha barriga. Bem segura ao meu.

O menina nasceu. Chorava de noite.

De dia vinha visitar-me. Dizia-se cansada. Não dormia porque a bebé chorava a noite inteira. Não descansava. Não engravidava. Dizia-me que não conseguia engravidar porque não descansava.

Havia de arranjar maneira de calar a menina. Começava a dar a ideia que punha a criança a chorar para o meu marido falar com os comunistas.

Parecia-lhe que havia de ter de falar com o pai para a ajudar neste assunto.

Um dia. Já a menina tinha uns dois anos vi-a a observar-nos da janela. Os olhos carregados de raiva. Esperou que subíssemos as escadas e chamou-me.

“Ó Rosa, pode vir aqui a casa que tenho uma coisa importante para lhe dizer?!”

Fui.

“Se a miúda me chora outra vez durante a noite vou chamar a PIDE, ouviste?! E sabes que vêm, não sabes?!”

Assenti.

Sabia que vinham. Da mesma forma que sabia que a minha menina não tinha feito um som durante a noite e que o que a havia incomodado era a sua existência.

 

Por isso bati-lhe. Bati-lhe até me cansar. Bati-lhe naquele dia 25 de Abril em que se distribuíam cravos. Uma revolução de paz.

Eu bati-lhe, cheguei à minha paz em cada bofetada que lhe dei.

“Vai-te embora, aqui não é o teu lugar. Devias estar no inferno e agora já não há mal que nos possas fazer.”

Fechei a porta e deixei-a no chão. Despenteada e com a cara marcada das bofetadas que lhe dei. Uma covarde, nem se defendeu. Usava e abusava do mal que sabia que podia infligir pelo poder do pai.

 

Todos os meses de Abril sorrio. Todos os meses de Abril me lembro das bofetadas que lhe dei. De deixar de viver em medo.

Todos os 25 de Abril compro cravos vermelhos, ponho no centro da minha sala e agradeço o bem que nos foi feito.

 

 

Esta é uma rubrica de contos. Cujo teor é totalmente ficcionado.