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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Conto #8

Aí filha às vezes mais vale dizer-lhes o que querem ouvir. Respira profundamente como quem pensa bem no que vai dizer. Olha e outras mais vale dizer-lhes o que precisam de saber. É da maneira que nos moem menos. Que pensam que são espertos e nós continuamos parvos.

Dizia a minha avó, sentada na cadeira velha da cozinha velha, quase tão velha quanto ela. O lenço preto na cabeça. A barriga pousada nos joelhos. O estalar da vagem e o som das ervilhas a cair no alguidar.

Está tempo delas e eu não gosto cá daquelas modernidades congeladas. Lá na terra apanhávamos e ia para o prato. Tínhamos saúde é o que era.

A minha avó que sabia de tudo e não sabia ler. A minha avó que se sentava na cadeira velha, da cozinha quase tão velha quanto ela.

Devia ir lá para casa mãe, ficava melhor.

Tantas vezes ouvi a minha mãe a querer levá-la e ela que não, que não se sentia bem noutra casa que não fosse a dela. E ela que depois me dizia, o teu pai não me quer lá. E eu não me quero a comer à mesa dele sem vontade. Já me basta o Natal. Tão boa moça a tua mãe. Havia de me arranjar aquilo filha. Graças a Deus não te assemelhas aquele animal.

Aquele animal que era o meu pai. O que era capaz de a levar ao colo escada acima escada a abaixo, o que a levava ao hospital a meio da noite e não dormia sem noticias. Mas aquele que lhe roubou a filha de casa. Trabalhava ao escritório mas não era doutor. Não era advogado nem médio. Ninguém sabe o que é que aquilo faz. Sentasse para ali, faz trabalho de mulher, à secretária, vamos a ver e um dia destes ainda lhe damos com uns sapatos de salto e umas collants de vidro.

A tua mãe podia ter casado com um homem com “h” grande. Mas enfim. Essas coisas do coração. Merda mais o coração. O que interessa é a vida. Quando a renda de casa está em atraso quer lá o coração saber quem nos aquece a cama. Quando nos apetece comprar uma prenda e faz falta para a luz queremos nós lá saber se nos agrada o cheiro à noite. Se ressona ou se peida. Paga. Isso é que interessa.

No meu tempo um homem era o que sustentava. A mulher tratava da casa. A mulher tratava dos filhos. E vocês o que vos aconteceu? Metidos numa porcaria qualquer com estranhos porque a minha filha, tinha de trabalhar.

A minha avó, sentada na sua cadeira velha, na sua cozinha que às vezes parecia mais velha que ela, presa no encanto de uma vida que não proporcionou à filha mas na ideia do que podia ter sido, alimentada a novelas, iludida, a confundir a realidade.

Às vezes tenho saudades das conversas sem sentido da minha avó. Até de quando ofendia meu pai. Sentada na sua cadeira velha. Mesmo quando o ofendia com ele sentado na mesma cozinha velha, esquecida de que ele lá estava. Ele sorria-lhe, desculpava o mau trato, lembrava-se que ela era velha e que um dia, de Deus quisesse daí a muito tempo podia ser a vez dele. De se sentar numa assoalhada com cheiro a mofo. Na sua cadeira velha. A dizer o que lhe passava com a ideia, com a liberdade sem filtro que a proximidade da morte nos trás.

 

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