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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Conto #6

- Para o ano lá volta para o vir buscar.

Consigo ainda ouvir quando volto costas depois de deixar o meu pai. Eu, a má filha, a ingrata, a que só o visita uma vez ao ano e mal liga.

Mal ligo. É verdade.

Sou escumalha humana e mereço que os meus filhos que façam exatamente o mesmo que eu faço ao meu pai. Ao meu querido pai. Mereço e vou ter, que já hoje se borrifam para mim. Se estou bem, se estou doente, se eu e o pai estamos de costas voltadas. Querem lá saber.

- Mãe a mesada?!

A frase que mais ouço. Um ordenado com pagamento fixo por existirem porque “os miúdos não podem ficar atrás dos outros”. Pois não, não podem.

Sou má pessoa, má mãe, pior filha. Não sou esposa. Sou casada e divido as contas com o homem que me pôs um anel no dedo, um homem que julguei que amava e amei. O que me prometeu que a vida ia ser um mar de rosas, que íamos ser felizes. Aquele que hoje liga a avisar que não janta. Tem reuniões.

Não te ligo paizinho, porque quero o teu colo e me deito em lágrimas. Não te posso contar que a tua menina não é feliz.

- És feliz, filha? – sempre me perguntaste.

Sou pai. Tenho de ser. Doi-me o corpo sem estar doente mas sou.

- Estás feliz, filha? – perguntas-me sempre que entras no carro. Quase 12 meses desde a ultima vez que nos vimos e a única coisa que queres saber é se sou feliz.

És tão melhor que eu.

Porque saí de perto de ti. De perto da mãe. Iam criar os meus filhos. Iam ajudar-me a cria-los. O colégio fez isso por mim. E hoje mal me conhecem.

Mas as promessas paizinho, mas as promessas eram grandes e tu fizeste-me acreditar que tinha de ser feliz. Que só isso importava e ele, ele fez-me acreditar que a felicidade plena estava longe de vocês.

Depois veio o primeiro bebé e não se deixa o pai de um filho, porque um filho para ser feliz precisa do pai e da mãe.

Não é paizinho? Tu e a mãe ensinaram-me isso. Um filho precisa de um lar.

E eu insisti, e eu tentei, e ele continuou na vida que queria ter. E eu trabalhava. E trabalho. E os miúdos cresceram. Sem vocês os verem. Sem eu os ver.

Sou má pessoa que não te visito, mas vou contar-te o quê papá? Vou contar-te que a minha vida é cinzenta? Que os meus filhos não querem saber de mim, que o meu marido dorme com a secretária e que eu, tua filha, que sempre te prometeu ser feliz, eu, sou todo o contrário disso?

Não mereço a educação que me deste. Quero ligar mas de dia tenho o trabalho, senão ficam-me com a casa paizinho, que ele gasta com a amante mais do que ganha e os miúdos não podem ir para a escola, têm de ir para o colégio.

- Larga-o. – Dir-me-ias tu. E eu que fazia? Mentia-te? Ou contava-te que tentei e fui sovada. Que tentei e os pais endinheirados, aqueles que iam facilitar tanto a nossa vida ameaçaram tirar-me os filhos se lhes prejudicasse o dele.

O traste.

E se te contasse paizinho que tenho nojo da pessoa com que me deito?

Que não te quer cá.

Se te ligar paizinho vou chorar. Vou chorar pelo teu ombro e vou pedir o teu colo.

Ai o teu colo papá.

Porque raio saí de perto de ti? Porque larguei a tua asa? Porque não te escutei?

Porque sou má filha.

Porque sou má pessoa e não percebi que a felicidade tem várias formas. E a infelicidade também.

Por isso te entrego aqui, papá. Porque te cuidam e garantem que nada te falta. E ligo para saber de ti. Mas não falo contigo. Porque se falar contigo vou chorar, vou contar-te que a vida não é nada do que sonhaste para mim.

Agora vou. Deixo as minhas lágrimas alguns metros depois da tua nova porta e sei que vez o meu carro. Sei que esperas que volte para trás. Sei que pensas que estou numa chamada importante de trabalho, ou sei que te contas isso a ti mesmo.

Só não sabes que choro com saudades tuas e rezo, para que antes de chegar o dia de um de nós ainda me encoste ao teu ombro e te faça saber que todos os dias me lembro de ti, mas não ligo, não ligo porque a tua menina tinha de ser feliz e essa, só vive na inocente imaginação da tua mente.

 

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