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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Conto #5

A música toca na televisão que está ao lado da mesa. Concentro-me no som e vejo os teus lábios a mexer. Sinto-me a pairar no som, movida pelas palavras de quem a canta, embalada na verdade de cada verso. A tua boca mexe. A boca dos que nos acompanham para almoçar esboça o sorriso satisfeito de quem gosta da tua companhia.

Encantas. Tens o dom de encantar.

Encantaste-me.

A tua perna roça a minha. Não de forma inocente. Pouco há de inocente no que fazes. Ocasionalmente o olhar que diz mais que mil palavras. E eu a ceder.

Mais uma noite em que te vou encontrar no teu apartamento. Para não ser namorada. Para não ser amante. Para não ser mulher.

Para estar.

Gostas que esteja. Mas não queres que seja nada. Há dois anos que somos um do outro sem os outros saberem. Ou melhor, há dois anos que eu sou tua e tu finges ser meu nos momentos em que estamos juntos. Só os dois.

Dizes tudo o que uma mulher quer ouvir. Consegues dize-lo de forma tão certeira, mais pareces um vidente que lê os meus pensamentos.

A musica toca na televisão ao lado da mesa e eu sinto-me fora de mim a assistir ao espetáculo de fingimento. Onde todos fazemos de conta que nada existe e eu tenho de fazer de conta que não te sou nada.

É fácil fazer de conta que não me és nada. Porque não és, de verdade.

És de muita gente.

“Não me posso entregar, detesto sentir-me preso”.

Detestas sentir-te preso. Mas a quem quer que seja ou a mim?

A música toca e eu digo baixinho dentro da minha cabeça o refrão. Passou a fazer sentido.

 

Goodbey my lover

goodbey my friend

you have been the one

you have been the one for me

 

Adeus meu amante, adeus meu amigo.

Adeus.

É a palavra que tenho para te dizer. Adeus.

Tenho de te dizer adeus. Goodbey. Tenho de seguir em frente. Porque me consomes. Porque espero. Porque sei que vou continuar a esperar. Porque se me quisesses de outra forma querias gritar ao mundo. Dar-me a mão. Fazer parte da minha vida, deixar-me entrar na tua em pleno e sermos um só. Um casal.

Entrar de mãos dadas no restaurante para jantar, em vez de me pedires que compre os ingredientes para cozinhar para ti.

“Havíamos de ir passar uns dias a qualquer lado” disse-te um dia. Assentiste forçado. Acenaste que sim para que tirasse a blusa e não me perdesse em amuos. Na manhã seguinte estavas esquecido. Íamos ver.

E quando vamos ver ficamos em casa.

Nos romances há sempre um momento em que o amante acorda para ver a amada a dormir. Admira a sua beleza. Sente-se o homem mais feliz do mundo com a sua presença e deseja que este momento jamais acabe.

Mas foi fácil demais. Não correste atrás de mim.

Tu querias-me e eu não fingi que não te queria.

Por isso acabamos em tua casa.

E assim acabamos todos os dias.

De vez em quando não podes. Assim, sem aviso.

E eu vou para o meu apartamento.

O almoço termina e eu pago a minha parte como sempre. Levanto-me e deixo-me ficar para trás. Sei que vais deixar-te para trás também. Vais tocar-me com o braço e perguntar se nos vemos logo.

Como o futuro por vezes se adivinha sinto-te a ficar para trás.

O toque do teu braço quase me trava.

A pergunta “vemo-nos logo?”

“Não”

O espanto. “Como assim?”.

“Acabou”.

“Que raio de brincadeira…”

“Acabou. Adeus. Se tivesses sequer sido meu amante diria adeus meu amante. Mas nem isso fomos um ao outro. Eu quero mais do que tu tens para dar. Quero que acordes mais cedo para me ver dormir. Quero que me abraces a ver o mar. Quero que me dês a mão. Quero que digas que sou tua. Não no quarto. Não na cama. Aqui, em frente a todos.”

“Estás a pressionar-me.”

“Não. Estou a dizer-te adeus.”

Voltei costas com uma sensação de alivio.

Vais sempre estar em mim. Vou lembrar-me sempre do quanto te quis. Mas por agora chegou ao fim.