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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Conto #4

E se eu olhar para o espelho e respeitar a pessoa que lá se reflete? E se eu olhar para o espelho e aceitar que é com esta pessoa que tenho de conviver todos os dias?

Nada transparece mais confiança que o respeito que temos por nós próprios. Preenche o ar que nos rodeia. É uma energia que não sabemos explicar, uma estrelinha que não se vê, uma forma de estar.

Há quem nasça com este sentido de respeito por si próprio. Uns dirão que se ganha, que depende da educação, do papel dos nossos pais, da educação e do apoio.

Diria que há verdade nessa teoria. Muito será inato, é certo. Mas a confiança depositada em nós, o respeito que nos demonstram, o que nos ensinam a ter, esse acompanha-nos para toda a vida.

É por isso que o amor faz tanta falta. O amor implica respeito. Porque quem ama trata com respeito, os filhos, os maridos, as esposas, os irmãos, os pais.

Nem sempre tenho este sentido.

Não me é inato. Não me é natural. É reconhecida a minha insegurança.

Mas tinha-a antes de te conhecer. Lembro-me de olhar para o espelho e confiar na mulher que refletia. Nas minha capacidades. Lembro-me de conhecer as minhas limitações e lembro-me de não lhes dar confiança. Lembro-me de ser eu. Apenas eu. De viver comigo e ser completa dessa forma.

Depois apareceste.

“Vi em ti algo especial”.

Viste a mulher que não sou hoje. Viste uma mulher que não conhecias, uma energia intocada, uma força que te atraía e então procuraste-me. Procuraste os meus pensamentos, as minhas vivencias, as minhas palavras e por fim o meu toque.

Aos poucos fui perdendo os meus interesses. Focada nos teus. Aos poucos fui perdendo a minha natureza, para viver a tua.

Aos poucos fui-me esquecendo tanto de mim que me lembro de olhar para o espelho e só te ver a ti lá refletido.

E o medo chegou.

Chegou para arrebatar o ser perdido em que me tornei porque não me espelho a mim, espelho-te a ti, que me és externo e que te maçavas das minhas palavras mais e mais.

A força tinha partido, a energia sugada e o respeito que tinha por mim feito em pó.

Mero pó.

O pó que sou hoje.

O pó que tento deixar de ser hoje. Juntando cada fino grão para me colar de novo.

Quando perdemos o respeito por nós próprios fogem-nos por entre os dedos os que mais amamos. Ganham outros interesses. Dizem “para mim já não dá, a nossa vida já não é divertida”. Fazem as malas e deixam a casa vazia. Deixam-nos vazios. Porque passaram a viver dentro de nós.

Uma paixão arrebatadora.

Uma desilusão avassaladora.

Mas a faísca do respeito continua dentro de mim. Vai-se acendendo aos poucos. E a cada grão reconheço melhor o meu reflexo. A cada grão aceito melhor a minha vida. A cada grão vou-me recompondo e depois de me cruzar contigo ouço “pareces diferente, devíamos combinar jantar, meter a conversa em dia”. A chama estava acesa, eu a voltar a morar dentro de mim. A ter interesses e tu em segundo plano.

“Tenho outras coisas, não me parece que vá ter disponibilidade”.

Já me ligaste mais 3 vezes. Para todas recebeste um não. Porque vives para sugar a minha energia. E eu não a quero perder outra vez.

Desta vez estou só apaixonada por mim.

 

Esta é uma rubrica de contos. Cujo teor é totalmente ficcionado.