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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Conto #2

Podia ter dado eu o passo. Mas fiquei à espera que o desses tu. Podia ter dado um sinal, um sorriso. Podia simplesmente ter deixado que a sensação de vida suspensa se mantivesse no ar. Aquele momento único numa vida. Em que paramos um em frente ao outro e esperamos tensos e expectantes por aquele momento que pode mudar o rumo dos dias. Aquele em que um de nós dá um passo em frente, em que uma mão acaricia um rosto, em que o rosto acariciado se deixa pesar sobre a mão que o acaricia num pedido carente de que o toque seja mais do que a palma de uma mão que nos quer. No desejo que se aproxime o calor de um corpo que desejamos há muito, fingindo não saber, que se aproxime suavemente a respiração de uma boca que ansiamos até que os lábios se toquem, desfazendo a tensão acumulada. Dando lugar a uma entrega de quem anseia por aquele momento há demasiado tempo.

Não são muitos os segundos na vida em que vivemos este momento. Em que o tempo paáa. A vida pára. Só existem duas pessoas presas num olhar, num momento.

Podia ter dado eu o passo. Mas fiquei à espera que fosses tu. Devias ser tu. Pela única vez na minha vida quis ser a donzela arrebatada pelo seu príncipe de roupas coloridas.

Queria ter dado mais um passo. Aproximar-me. Tocar ao de leve no teu casado e procurar que o teu olhar me dissesse que querias o mesmo que eu. Queria ter tido a coragem de tentar. Mas não tive.

Podia ter dado o primeiro passo mas em vez disso quebrei o momento, não consegui lidar com a tensão que nos ligava e falei, desconversei, parti em estilhaços um momento que nunca mais vivi. Um momento que assenta numa linha ténue de paixão. No momento em que aprendemos o que é querer alguém de verdade.

Quebrei o momento e percebeste que o quebrei.

Não sei o que pensaste. Eu pensei que sou uma idiota.

Ou talvez idiota sejas tu por não te teres aproximado de mim. Por não teres tentado estar mais perto. Por não colocares a tua mão no meu rosto. Ia deixa-lo cair na tua mão.

Devias saber disso.

 

Saio do banho e seco-me. Estou atrasada para o jantar de hoje. Um grupo de amigos. Jantamos uma vez por mês, é a forma de garantirmos que não nos perdemos uns dos outros. O trabalho impede-me muitas vezes de estar nestes jantares. O trabalho e a vontade. Há anos que procuro alguém que me faça sentir o mesmo que senti naquele dia. Conhecíamo-nos como a palma da mão. Acabávamos as frases um do outro. Eu percebi tarde demais que queria mais do que ser amiga. Ele não sei. Encontrou outra pessoas e nunca me disse se sentiu o mesmo que eu.

Quando chego para jantar já estão todos à minha espera.

- Íamos pedir sem ti. Como sempre atrasada.

Sorrio, sei que tem razão.

- Jaime, anda cá conhecer aquela minha amiga de que te falei. Muito boa moça, não se percebe porque raio ninguém lhe pega.

A conversa do costume, à qual reviro os olhos, a que já aprendi a levar na brincadeira porque a verdade é que para aqui ando, sem companheiro, sem casamento, sem filhos, sem divórcios, sem sogras, sem casa dividida, sem separações, sem cães nem gatos. Enfim, sem nada para além do meu trabalho, dos meus livros, dos meus amigos e das minhas memórias. A maioria assente em pouco mais de um ano da minha vida.

- Jaime esta é a Rita. Rita este é o…

- Jaime, sim, eu e o Jaime já nos conhecemos.

Bem demais. Bem de menos.

Foi como se todos desaparecessem e ficássemos só nós dois outra vez. Como se o nosso olhar conversasse e estivesse a contar os pormenores dos últimos 15 anos.

- Então que é feito da tua vida?

Desta vez foi ele a quebrar o silêncio.

- Faculdade. Trabalho. Amigos.

- Só?!

- Achas pouco. Ok. E tu. Casado, filhos, uma casa na colina?

- Nada disso. A mulher com que queria casar fugiu-me por entre os dedos. Os filhos, a tê-los, seriam com ela. A casa na colina não me faz falta se é para lá estar sozinho.

Fico vermelha. Desejo que seja eu a que escapou por entre os dedos e depois não acredito que pudesse estar à espera de mim. Logo de mim.

- É uma mulher idiota. Nem sabe o que perdeu.

- Achas mesmo?

- Acho.

Um acho que tenta transmitir mais do que aquilo que a pequena palavra significa em qualquer dicionário.

Toca-me no casaco.

- Estás bem. Bonita. Toda janota.

Olho para a mão dele e tenho a certeza que não quero deixar passar outra vez momento nenhum.

 

O jantar passa entre conversas às quais dou pouca atenção. Cruzando o meu olhar com o dele sempre que o momento o permitisse.

Saímos, despedimo-nos.

- Ainda bebemos um copo. – diz a Raquel.

 

Olho para ele.

- Não. Hoje não dá, vou andando.

Entretenho todos até entraram para os seus carros e ficámos só nós.

- E agora…? – diz-me.

- Não sei. Diz-me tu.

- Desta vez não te deixo fugir.

- Quem disse que eu quero.

Sorri.

- Anda.

- Para onde.

- Já vais ver.

Dei-lhe a mão e entrei para o carro dele.

Deixei que me acariciasse o rosto. A perna. Que me apertasse a mão com força.

Parámos em frente ao mar. Ao pé de uma autocaravana.

Ficamos parados em frente ao mar. O silêncio. De novo o silêncio. A tensão a subir e a minha incapacidade de ter a coragem de perceber que este homem me quer tanto quanto o quero a ele.

Eu a donzela de novo.

- E agora? – pergunto eu.

- Agora fazemos de conta que tu nunca nos interrompeste à 15 anos atrás.

 

Esta é uma rubrica de contos. Cujo teor é totalmente ficcionado.