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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Conto #17

Naquele dia o sol estava impiedoso, não me recordava em quarenta e poucos anos de vida de sentir um calor assim. Eu de fato. Eu sentado no meu velho Fiat, as gotas de suor a escorrer pela cara, a mala de catálogos pousada a meu lado. As vendas que não saiam, os clientes que já não tinham verba para mais inventário e um patrão alheio às condições do mercado.

“Rodrigues, sabes que isto em Portugal não anda fácil!” Na minha cabeça mandei-o para a puta que o pariu, da minha boca saiu um “entendo senhor Marques” e um sorriso amarelo.

Cheguei a casa sem uma venda feita. O lenço de pano que já tinha sido branco em tempos estava molhado de amparar tanto suor. A visão numa névoa, tudo me parecia turvo, os carros, a estrada, a vizinha do quarto direito, a coscuvilheira de serviço que me cumprimentava a cada entrada e a cada saída. Quase me parecia um cabrão de um controlo de ponto.

Fecho a porta um homem acabado, um poço de desespero, um mundo de perguntas para as quais ninguém encontra resposta, uma delas como pôr comer na mesa.

Na sala o mais velho alvitra “o povo tem de se revoltar. Chega de Salazar!” e eu, ainda de vista toldada pelo calor, prego-lhe uma bofetada. “Aqui não se fala assim de Salazar. Porque tenho de trabalhar e tu tens de comer!” Só depois me ocorreu que não se bate na cara de quem já faz a barba. Mesmo que o tenhamos carregado ao colo.

Por isso quando me disse que não tinham espaço lá em casa, aceitei. Afinal de contas há momentos em que o amor se molda ao orgulho, em que marcamos o nosso significado nos que mais amamos. E depois...depois temos de viver com isso.