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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Conto #16

Naquele dia deixei-me ficar a observa-la. Sempre confiante de si mesma, um controlo de movimentos que quase denotava a frieza que não tinha. Percebia uma agitação interior controlada com a necessidade de manter as aparências que a circunstância pedia.

Eu sempre fora de contexto, como um peixe desengonçado que nada fora da água. Com o dedo anelar ajeita o cabelo arranjado há duas horas no cabeleireiro e enquanto percorre a sala com o olhar ajeita as madeixas atrás da orelha deixando brilhar os brincos comprados a custo e que usa apenas em ocasiões especiais.

Vê-me do outro lado da sala, porventura demasiadamente perdida nos seus gestos, como quem regista para mais tarde copiar, como o macaco que emita os gestos, ou quem sabe a criança que aprende com o que vê. Caminha lentamente em minha direção e eu sinto uma gota de suor percorrer a minha espinha. O desconforto percorreu o meu corpo como uma onda de eletricidade veloz e em frações de segundo tinha pairado até mim.

“Está a gostar da festa?” Tossi um simples sim enquanto o cérebro me pedia uma solução para fugir.

Dormes com o marido dela. Porque me quer, desengonçada, com uma mulher destas em casa?

“Não percebi bem o convite feito pelo meu marido à sua pessoa. Trabalham juntos? Não me lembro de a ter visto no laboratório.”

E eu sem saliva para engolir. A boca que lhe beija o marido seca como uma rolha. A boca que não fica sem palavras na cama de hotel em que nos nossos corpos se envolvem.

Ela sabe. Claro que sabe.

“Deve ser uma excelente profissional…para ter sido convidada!”

E afasta-se depois da observação. Não sem antes percorrer o meu pobre ser com os seus olhos azuis safira. O gelo com que ele se deita.