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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Conto #15

Sentei-me no banco de pendura do carro. Recostei-me e fechei os olhos. As lágrimas rolavam pelo meu rosto.

- Queres falar?

Sentado a meu lado tentava segurar na minha mão. A dor de ver quem se ama a sofrer sem saber o que fazer.

Continuei recostada no banco do carro, os olhos fechados e a escassas de palavras. Eu, que falo pelos cotovelos, sem saber que palavras usar. Um sentimento desesperante, quase tão frustrante quanto os meus dias.

Choro e sinto o carro a trabalhar. Está a estaciona-lo virado para a parede, para que pudesse ter alguma privacidade na minha dor.

- Já não sei nada. Já não sei o que mais fazer da minha vida. Sinto-me frustrada. Sempre frustrada. Numa agonia constante que me faz ficar mal disposta. As obrigações do dia a dia mais aquelas que me imponho. Sinto-me cansada. Tão cansada. Já não dou conta do recado.

 

A semana tinha começado mal. Alguns anos atrás tinha aceite ser fiadora de um contrato de financiamento de um familiar. A vida desse familiar ficou do avesso e a divida dele ficou comigo. Já andava a carregar com esse fardo há mais de um ano e nesse dia fiquei a saber que ainda ia durar mais 3 anos. Tinha projetos para a minha vida, mudar de casa, um colégio melhor para a miúda. A minha vida tranquila de comprar mais uns sapatos se me apetecesse.

Tudo por água abaixo. O ordenado não ia dar para tudo.

Os dias de trabalho sempre iguais numa esquizofrenia constante. Sem mãos a medir. As noites com falta de descanso. As semanas a passar carregadas de dias repletos de obrigações. A cabeça a ceder. A voltar a ceder como já tinha feito um ano antes. O ano em que comecei a ter ataques de pânico e de ansiedade. Em que os meus medos começaram a mandar mais na minha vida que eu.

 

Sentada naquele banco do carro vi a minha vida estagnada. Sempre iguais.

- Eu só quero uma solução. Uma janela para uma coisa diferente ou a capacidade de aceitar de forma tranquila que a vida é mesmo assim. Uma das duas, só quero uma.

Chorei. Chorei muito. Não tinha conseguido almoçar, a comida dava-me vómitos e a minha cabeça dizia-me que me estava a dar qualquer coisa, não fazia sentido estar enjoada assim, do nada.

Neste dia. Hoje, decidi que a vida tem de ser diferente. Que tem de ser vivida com mais calma, com a serenidade possível dos dias frenéticos que tenho.

 

Decido fazer uma lista das tarefas que temos a nosso cargo.

 

Levantar às 06.

Vestir.

Preparar malas de refeição para o dia

Preparar pequeno almoço

Tomar pequeno almoço

Lavar dentes

Fazer necessidade fisiológicas

Preparar as crianças 

Dar de comer à tartaruga

Pôr comer à gata

Limpar a casa da gata (caso contrário mia todo o dia)

Sair a bufar com no mínimo 1 mochila, 1 saca de almoço e a minha mala. Há dias em que descemos com estes 3 sacos, mais dois de desporto para ir ao ginásio (apesar de depois não irmos)

Meter tudo no carro e ir deixar a menina ao colégio

Ver o transito e seguir para o trabalho.

Seguir para o trabalho

Sentar a trabalhar.

Toca para a hora de almoço e engolimos o que vem na marmita, vamos comprar coisas que estão sempre em falta em casa: fruta, papas, meias, iogurtes, leite, enfim tudo o que nos falta na lista porque quando a fazemos – e fazemos – temos a cabeça tão cansada que não damos conta de tudo. E insistimos fazer de cabeça. Invariavelmente compramos coisas a mais e outras a menos.

Voltar a sentar a trabalhar.

Sair a horas (tentar...porque há sempre mais um relatório para entregar)

Metermo-nos no transito.

Já de noite chegamos a casa.

Um adianta o jantar e os almoços do dia seguinte.

O outro trata da descendência.

Jantamos.

Todos para a cama.

Olha-se para o relógio.

Sentamo-nos um de cada lado a ler o prometido capitulo de um livro.

Para desligar com o dia.

Nós deitamo-nos a pedir que amanhã seja dia outra vez. Agradecemos o que temos e pedimos que se durma a noite seguida.

Às 4:15 acorda, quer leite e o aconchego da cama dos pais.

E o dia começa outra vez.

 

Esta é uma rubrica de contos. Cujo teor é totalmente ficcionado.

 

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