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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Conto #14

Passa pouco das 10 e já todas estão juntas para o café da manhã. “Tens uns sapatos de meter inveja”, diz a Graça para a amiga Natália. Nem sempre veem taco a taco e a primeira procura a aprovação da amiga. Afinal de contas tão mais sabida e certa. Foi a primeira a casar-se “arranjou um oficial de marinha” dizia a mãe orgulhosa. Nunca trabalhou um dia, guardava as manhãs para dar as instruções à empregada que lhe arrumava a casa e fazia as refeições. Saia para beber café, arranjada e de mala com corrente dourada. Os saltos sempre impecáveis. Uma elegância que encobria a falta de densidade que lhe preenchia o âmago. O filho já caminhava para a escola. O casamento por conveniência. Sabia-se que o oficial era um homem com muito amor para dar e que o espalhava além fronteiras. “O meu marido é um senhor, em casa garante-me tudo” dizia à boca cheia. Graça bebia as palavras da amiga e sonhava com o dia em que encontrava um oficial para si, um homem que fizesse dela uma senhora de mala com corrente dourada, sempre em cima de saltos polidos. A senhora que dá indicações à empregada e arranja o filho antes da escola. Enquanto não se criava a oportunidade bebia as palavras da mulher que idolatrava. “Com a idade que tens não sei se te safas com um homem como o meu. Já começas a caminhar para velha…temos de os encontrar na altura certa…mas deixa lá, é importante aceitar o que a vida nos dá” dizia Natália a Graça sempre que falavam de casamentos. Assunto que se assomava ao pequeno almoço de amigas quase todas as manhãs. Afinal de contas já pouco lhe dava prazer na vida e não tinha qualquer interesse em ser mais uma. A amiga que a venerava passar a ocupar o seu estatuto era algo que a perturbava. Então insistia que já ia tarde, que não tinha a classe necessária para encontrar um homem como o dela, que sempre tinha sido demasiado roliça para um homem de farda branca. Qualquer motivo que rompesse com as esperanças de Graça e lhe causassem lágrimas de desgosto nos olhos. O prazer que retirava no sofrimento de alguém que tanto bem lhe queria. Natália não sabia porque se sentia feliz com a desgraça de Graça, afinal de contas eram amigas e Graça nunca tinha feito nada que a ofendesse. Mas era o domínio sobre o bem estar da amiga que a preenchia por momentos.

Quando não se falava de casamentos, ou das viagens do marido de Natália, sempre a países que mais ninguém tinha visitado, suscitando sonhos acordados na pobre Graça, o assunto era o pobre casamento de Matilde. Conheciam-na desde tenra idade, esperta que ela só, sem papas na língua. Não se dava a seguir a carneirada e lá tinha a opinião dela sobre as moças, agora senhoras, que se sentavam todas as manhãs por mais de duas horas, entre café, chá e bolos, a relatar o bem e principalmente o mal da vida alheira.

“É um putedo senhor Alfredo” dizia a Margarida que trabalhava na pastelaria desde moça e assistia às conversas todas.

“Falam muito de ti às vezes” dizia Margarida e Matilde sabia. Afinal de contas que tinham elas mais para falar que não fosse da vida alheia.

“Do marido da empinocada, que fode tudo quanto mexe, não falam de certeza! Então o homem é oficial de marinha lá fode alguma coisa. Só vai comendo por fora. Também não o censuro, com uma saca de palha daquelas em casa…” Margarida ria-se, não porque gostasse especialmente de Matilde, mas porque era tratada com modos rudes pelas dondocas do pequeno almoço, como se fosse inferior por servir uma caneca de chã. Fazia gosto no que a amiga de circunstância lhe dizia.

Certo dia encontraram-se todas à mesma hora na pastelaria “ora que bons olhos te vejam dona Matilde! Então que tal vai a vida, cansativa, com tudo em casa para fazer?! O teu Manuel tem de arranjar outro negócio, tens de o fazer ver que te tem de dar uma vida melhor…olha para essa camisa, vê-se que já precisava de reforma” Enquanto falava ia olhando de esguelha por cima do ombro, a receber a aprovação da amiga subordinada que a tudo assentia. Afinal de contas se não fosse assim era ela o alvo, sem marido nem nada.

“Deixa lá estar o homem na fábrica, pelo menos assim sei que o que come é de casa…já o teu alimentasse muito por fora e depois…” Natália fez-se de despercebida quando já toda a gente se ria atrás das chávenas de café. Não havia cão nem gato que não soubesse do amor que o marido tinha para distribuir. Até à vizinha do ultimo andar tinha distribuído carinho. Mulher sozinha e viúva que Natália conseguiu escorraçar do prédio à força de infâmias.

“Depois o quê?” replicou Natália ajeitando o cabelo num trejeito de quem foi apanhada de imprevisto.

“Então depois fica doente com coisas estranhas lá de fora como aqui há uns meses…não se falou noutra coisa!”

Natália ajeitou-se na sua condição e proferiu um “são problemas de estômago hereditários” que despoletou a risada global.

Matilde pegou nas carcaças e saiu para a sua vida. Afinal de contas tinha mesmo a casa para limpar e os dois filhos ranhosos com a gripe aos cuidados da pobre mãe.

Para Natália o pequeno almoço acabou mais cedo. Porventura com uma subita dor de estômago apanhada no estrangeiro.

 

Esta é uma rubrica de contos. Cujo teor é totalmente ficcionado.