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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Conto #12

Acordo com a satisfação de me saber viva. Nunca se sabe quando é que a meio da noite uma pessoa se vai.

A cabeça preenche-se de todos os problemas do dia e a dor no braço esquerdo aperta. Não tem nada, isso é tudo nervoso. Tem de controlar os nervos. Mas tem a certeza doutor? Tenho, tenho.

Quando acabo de calçar os chinelos já percorri na minha cabeça a lista de tarefas para o dia.

- Mãe dás-me leite?

- Sim, filha. A mãe vai já.

Um enjoo. Outra vez um enjoo. Esta merda de ficar enjoada como se tivesse acabado de comer uma mousse de chocolate inteira. Mas e os enjoos doutora, será que não é grave? Nas análises não mostra nada. Está tudo perfeito consigo. Felizmente não é. É, digo-lhe eu. E saio, saio do consultório depois de mais um aperto de mão. Depois de me saber permanentemente mal, um mau estar físico que ninguém encontra por mais exames que falta.

- Mãe posso levar as minhas calças azuis hoje?

- Podes filha.

Acorda sempre cedo, nem tenho tempo de acordar a cabeça. Mas também para quê, se quando acordo a cabeça só faço listas e mais listas e mais listas de tudo o que tenho de fazer. O que me é imposto e o que sobrecarrego em mim.

Arrasto-me até à cozinha e aqueço o leite. Penso no que vou comer e só sinto nós no estomago.

- Levas hoje as miúdas à escola? Tenho uma reunião antes da 9.

Há sempre mais uma reunião. Eu também as tenho mas já me habituei a encaixar as miúdas. Uma espécie de jogo tetris que me acompanha todos os dias.

Penso em como a vida era antes de elas nascerem. Penso em mim antes de ser o fantasma que sou hoje. Lembro-me de como me divertia quando saia à noite, de quando fumava, de puxar de cigarros uns atrás dos outros porque todos morremos e não vale a pena acautelar tudo.

Hoje até na morte durante o sono me lembro.

Até à pouco tempo ainda acordava para dar conta se as miúdas estavam vivas. Custava-me a ideia que se me apagassem durante a noite. De repente um dia parei de o fazer. Não sei se foi o corpo que deixou de acordar se fui eu que passei a ter saudades da minha vida antes delas nascerem.

Só a ideia me põe na merda. Que raio de mãe tem saudades da vida antes das filhas. A vida começa com elas não é.

Às vezes tenho saudades de quando era solteira e a vida era mais fácil. Disse um dia a uma colega de trabalho com quem me dou, quer dizer, dava, melhor. Devias era morder a língua quando dizes essas coisas, tens um marido que não te deixa e duas filhas com saúde. Sabes quantos de nós davam o cú e dois tostões para ter o que tu tens.

Desabafei e esqueci-me que o marido a tinha deixado e que nunca tinha chegado a ser mãe. Ela dava o mundo para ter a minha vida e eu, em certos momentos, dava um braço para estar uma semana na vida dela.

Gastar o dinheiro que quisesse nas maiores futilidades sem me lembrar do que as miúdas precisam ou da renda. Par poder inscrever-me em atividades divertidas em vez de fazer ginástica mental para descobrir que afinal o Yoga não é uma opção. Ter o comando para mim num horário civilizado. Poder acordar e tomar conta de mim sem pensar que há quem mais dependa.

Parece-me que tem aí uma depressão pós-parto mal resolvida. Tenho a ideia que havia de ir para casa descansar. Passar mais tempo com as suas filhas. E eu lá aceitei ir para cada umas semanas. Devia fazer caminhadas e ir buscar as miúdas mais cedo à escola para estarmos mais tempo juntas. Caminhei os dois primeiros dias. Depois comecei a limpar na casa tudo o que não tinha tempo para limpar nos dias normais. Depois o marido começou a pedir para tratar disto e daquilo e na segunda semana estava a trabalhar mais em casa que no emprego.

Parece-me que não funciona doutora. Isto até tenho descansado menos.

E lá fui trabalhar. A alvorada de madrugada. A filha que se levanta assim que ouve o meu despertador e a outra que arranco dos lençóis, uns dias com mais paciência que outros.

- Amanhã levo-as eu.

Ouço-o dizer antes de sair. Foi o mesmo que disse todos os outros dias deste mês que está a acabar, mas há sempre mais uma reunião e eu sou uma super mãe.

Esfrangalhada mas super. Afinal de contas consigo chegar ao que todos precisam, só não me chego a mim.

 

Esta é uma rubrica de contos. Cujo teor é totalmente ficcionado.

 

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