Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Conto #11

O final de dia avizinhava-se igual a todos os outros. A mesma viagem curta do trabalho para casa. A mãe que a esperava sentada na cama. A loiça no lavatório.

- A mãe hoje estava cheia de dores, não consegui tratar de nada.

- Deixe estar mãe, descanse.

E descansava. Na maioria dos dias com as dores fingidas e assentes na mentira menor que contava à filha todos os dias. A verdade inventada de que tinha passado mal o dia, deitada na sua cama, quando na verdade passava as tardes em conversa com as amigas que recebia em casa.

Na filha a empregada grátis que mantinha, aquela que havia de pagar sempre a graça divina que a mãe lhe havia dado por a ter trazido ao mundo.

Todas as linhas do dia iguais aos anteriores. A melhor amiga com namorado novo nem se via. Por isso o caminho era feito para casa. Fazia o jantar. Levava-o à mãe que o comia na cama a ver um qualquer programa de televisão que nunca se deu ao trabalho de querer saber.

Olhava com enfado para o lava loiças. Carregado de pratos e copos. Quantidade para qualquer mentecapto perceber que a senhora chorosa havia passado por tudo menos um dia difícil.

Mas que mais havia de esperar pela mãe que a deixava sozinha aos cuidados da senhora da padaria para poder seduzir o proprietário do stand de automóveis ao fim da rua. O mesmo com quem mantinha relações menos saudáveis e calorosas. Aquele que se mantinha casado com a melhor cliente do cabeleireiro onde trabalhava.

Secretamente Matilde sabia que a mãe esperava pelo dia em que aquele homem de cabeço inundado de brilhantina deixaria a sua mulher para se ocupar da sua mãe. Fazer dela uma senhora de casa, bem vestida, com empregadas e viagens de cruzeiro.

Tal nunca aconteceu. Por outro lado passou a ser uma visita frequente a sua casa a meio do dia. Quando chegava a casa da escola tinha a comida para aquecer numa pequena panela. Do quarto da mãe risadas. A voz de um homem que conhecia bem.

Margarida cresceu e o olhar daquele homem pouco sério começou a pousar nas suas formas. A mãe preencheu-se de ciúme e descarregou a cada segundo que a vida lhe permitia a sua pérfida maldade na filha que devia ter amado, mas que afinal nada mais era que um empecilho.

- Se não te tivesse tido o meu corpo era ainda hoje melhor que o teu. Ainda hoje sou mais mulher do que alguma vez serás. Consegues ver isso?

Margarida baixava os olhos. Fechava-se no quardo. Lia e imaginava o dia em que um príncipe encantado a salvava daquele suplicio.

 

Mas o tempo foi passando e Margarida percebeu que os príncipes querem casar com princesas, porque a maior fraude de todas é a Gata Borralheira. Ninguém quer a mulher que trabalha e limpa a casa. Os príncipes querem as mulheres vestidas de cores garridas que bailam e riem sem motivo nas festas. Querem as mulheres destemidas e sem responsabilidades.

Querem casar com boas famílias e não com uma mãe que engana a filha para fazer dela a sua empregada pessoal, numa procura de vingança não justificada.

 

O final do dia parecia igual. Mas o telefone tocou. Mal conseguiu ver o numero.

- Outra vez?! A sério?! Não passa de hoje.

O telemóvel avariava com frequência ultimamente. Estava ultrapassado, forrado com fita cola, mal se via o nome de quem ligava no visor. Mas também não precisava ler o nome de quem lhe ligava, as hipóteses eram poucas.

Cristina, a melhor amiga. Ligava mais de cinco vezes ao dia quando estava solteira. Ligava menos de uma vez por semana quando tinha alguém. Por isso, para estar a receber uma chamada dela é porque tinha levado com os pés…outra vez.

Márcio, chefe do trabalho. Um tipo intratável que exigia mais do que era obrigada a trabalhar. Mas cedia, afinal de contas a vida era feita de cedências. Pelo menos a de Margarida.

A mãe, tinha há muito deixado de contar as vezes que lhe ligava por dia. Atendia umas, outras usava o estado do telemóvel como desculpa para não atender.

 

Chegou ao Centro Comercial aborrecida, entrou furiosa numa loja de telemóveis, decidida a desfazer-se daquele pedaço de plástico lastimável.

- Quero comprar um telemóvel, mas quero uma coisa barata. Não quero gastar mais de 100 €.

O rapaz que a atendeu foi atencioso e encontrou-lhe logo uma boa solução.

- Quer que o ligue já?

- Sim, trate-me já disso por favor.

Tratou. Deu-lho para a mão.

- Veja se se adapta bem.

Tinha uma mensagem que dizia:

 

                Onde andas. Estou farto de te ligar. Queria beber um café contigo.

 

Marcou o numero mesmo antes de pagar. Fez sinal ao rapaz para aguardar só por um instante. Sentia como se estivesse fora do seu corpo, a ansiedade a tomar conta.

- Olá.

- Por onde andas? Estou farto de te ligar.

A imposição e a urgência.

- O meu telemóvel avariou e tive de vir comprar outro. Aliás estou a falar contigo de um telemóvel que ainda nem paguei.

Ambos riram.

- Então paga e vou buscar-te a tua casa.

 

Pagou e saiu do Centro Comercial mais depressa do que entrou. Chegou a casa sem se lembrar de ter feito o caminho. Subiu as escadas, aqueceu no micro-ondas o jantar da mãe, estendeu-lhe o prato e saiu, não sem antes a ouvir lá do quarto:

- Há loiça na pia por lavar.

Voltou atrás e disse da porta:

- Lavo amanhã. Não devo dormir em casa. Ou pelo menos devo chegar tarde.

 

Não sabia porque raio tinha dito aquilo. O Paulo era irmão da Cristina. Sempre houve uma tensão entre ambos. Uma tensão boa, daquelas que deixam coisas por dizer, por fazer. Ele namorava com alguém há anos e nunca se tinha passado nada. Ele insinuava-se. Ela não fugia. Quem sabe, pensava.

- O meu irmão é mulherengo. Só eu sei como ele engana aquela desgraçada, por isso, tira daí a cabeça.

E Margarida tirava. Seguia na sua vida cinzenta. Sempre mais escura e opaca perante a vida emocionante da amiga.

 

- Como vais?

Um beijo na face porventura perto demais dos lábios. Uma tentativa de perceber a recetividade daquela presa.

Posso ser uma presa por uma noite. Que tenho eu a perder.

- Estou bem. E tu?

- Agora melhor…com a tua companhia.

A caricia no rosto que tardava.

Foram a um bar perto do mar. Beberam um copo. Depois outro. Mais outro. Os suficientes para Margarida se sentir desinibida. Os suficientes para Paulo passar a mão pela sua nuca, para a puxar para si, para tomar conta da sua boca. Para que tudo se tornasse mais intenso por dentro.

- Vamos para tua casa?

Uma sugestão. Um pedido. Um desejo.

- Vamos antes para a praia. É diferente. É sensual…como tu.

Disse-lhe. Sussurrando ao ouvido como se estivesse dentro da sua cabeça.

Aceitou sem sequer se lembrar de dizer que sim.

Caminharam para a praia. O som dos mar, os lábios daquele homem por quem estava apaixonada há anos, as suas mãos a percorrer-lhe o corpo. Naquele preciso momento, no segundo em que as mãos quentes daquele homem lhe tocaram no sexo pela primeira vez esqueceu-se de tudo. Não havia uma mãe oportunista, não havia uma vida vazia, não havia uma amiga que apenas a procurava quando não tinha mais ombro nenhum.

 

Quando terminaram ele levantou-se.

- Devíamos ir embora, está a ficar frio.

- Pensava que íamos ficar aqui mais um pouco.

- Pois. Era boa ideia mas está frio.

E ela aceitou o frio apesar da noite quente que se fazia sentir.

Chegados ao carro sentia o gelo que ele emanava.

Percebeu o que não queria ver. Testou-o.

- Para a próxima podíamos ir para tua casa.

- Não me parece boa ideia.

- Porque a tua namorada está lá a dormir?

- Ouve Margarida….

- Eu sou crescida, já devia ter percebido…deixa-me em casa por favor.

 

Fizeram o caminho em silêncio. Mas à porta de casa de Margarida ele sentiu a necessidade de se explicar. Normalmente não o fazia mas esta era uma situação especial, afinal de contas iriam certamente encontrar-se mais vezes.

 

- Escuta Margarida, eu não quis…

- Magoar-me? (riu-se) Não magoaste. Tinhas um final de tarde para matar e eu tinha um serão de loiça e tédio. Ambos nos ocupámos. Foi divertido, apesar da areia. Não te preocupes, eu não sou o que tu gostavas e tu também não és a queca que eu estava à espera…por isso…amigos na mesma. Mas não repetimos isto…não me encheu as medidas.

- Ahhh, bom eu pensei…

- Espero não te ter magoado…mas sou muito honesta.

 

Saiu do carro e bateu com a porta mais confiante do que tinha entrado. Subiu as escadas com a promessa que tinha de ser diferente. Ia ser diferente. Rodou a chave a a voz da mãe não tardou.

- Afinal não passaste a noite fora!

A observação que deixa subliminar a ideia de que ele não a quis para a noite toda, como o vendedor de automóveis não a queria a ela para lhe aquecer os pés.

- Pois não. Não foi o que eu estava à espera.

- Amanhã lavas a loiça!

- Não. Amanhã levantas tu esse cu preguiçoso da cama e lavas a merda que tu e as tuas amigas cagarem cá em casa. Depois aproveitas e fazes alguma coisa para comer. A ver se te fazes gente alguma vez na vida.

- Não participas não moras debaixo do meu teto.

- Não te preocupes, para a semana já cá não estou. E suspeito que depois disso me vais ver pouco.

 

No sai seguinte levantou-se e tomou um longo banho. Vestiu a melhor roupa que tinha no armário. Comprou o jornal e procurou casas para arrendar.

A vida ia ser diferente. Com ou sem príncipe encantado.

 

Esta é uma rubrica de contos. Cujo teor é totalmente ficcionado.

 

 

2 comentários

Comentar post