Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Conto #11

O despertador tocou. Mandei-o calar. Carreguei lá no botão e parei para pensar. Já tinha acordado outras vezes durante a noite, pensava que já estava na hora. A cada vez que acordava sentia-me mais e mais cansada, como se tivesse estado a trabalhar mesmo no sono.

As tarefas. Os afazeres. As obrigações. A merda que me rodeia e que prometo que vou deixar.

Mas as contas, Maria. As contas.

Esta responsabilidade insensível que trago em mim.

O despertador toca outra vez. Mais uma. Outra.

Adiei.

E se não fores hoje. Se não apareceres. Se não deres as caras.

Mas o Marques está à espera dos relatórios. 

Mas deixei um e-mail urgente para mandar à Amália. 

Essa cabra que acha que faz tudo melhor que os outros. Uma pega é o que é. Uma pega deitada. Uma pega colocada onde precisava. Uma pega promovida para fazer o que não sabe.

Mas lá está, deita-se como ninguém.

Todos temos virtudes.

A miúda interrompe-me o pensamento e tira-me da ideia  Amália na sala das fotocópias com o Gonçalves. Saia arregaçada e cuecas a caminho dos tornozelos.

Ele casado. A mulher anda a comer o vizinho e ele entretém-se no trabalho. Vale que ao domingo vão à missa e têm a bênção do Senhor.

- Mãe, fazes-me o pequeno almoço.

- Tens fome filha?

Olho para as horas. Claro que tem!

- Tenho de ir para a escola.

Levanto-me. Preparo-lhe o pequeno almoço ainda despenteada. Ainda de pijama. Ela de pijama.

Faço tudo com a calma contrária à agitação que me dita os dias.

- Hoje ainda não te vestiste, mãe.

- Não.

Um ser tão pequeno, mal sabe ler e já tem cravado no seu dia as regras de uma vida de trabalho. Qual trabalho ao campo de outrora. Os colégios, o ATL, as atividades extra-curriculares. Um campo fechado em quatro paredes. Conteúdos de enxada para a mente.

- Sabes o que é fazer gazeta?

- Gazeta?

- Sim.

- Não.

Diz numa curiosidade cautelosa.

- Hoje vamos passear. Vamos ligar para a escola e dizer que estás doente. Vou ligar para o trabalho e dizer que estou com dor de barriga.

- Mas não estamos doentes.

- Pois não. Mas vamos dizer que estamos. E vamos vestir-nos. E vamos passear a Lisboa.

Vestimos a nossa roupa de fim de semana. Pouco preocupadas com o arranjo das peças e o alinho dos cabelos. 

Passeamos de mãos dadas. Tiramos fotografias que guardamos só para nós.

Rimos. Fingimos que a vida podia ser assim todos os dias.

Chegámos a casa com o jantar já feito num saco. Comemos e deitámos-nos cansadas.

- Sei que amanhã é um dia igual ao de ontem. Mas hoje gostei disto da gazeta.

- Eu também. Porque a passei contigo.

E acho que vou ter dores de barriga mais vezes.

Deito-me sem me lembrar do e-mail do Marques. Ou do relatório da Amália. Ou ao contrário, já nem sei. Aquela pega que se deita melhor que escreve. Mas lá está, cada um com as suas virtudes.

 

2 comentários

Comentar post