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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Conto #10

A Dona Carmo é uma criatura de hábitos. Sei. Vejo-a da minha janela.

Podia deixar de ter relógios em casa à conta das suas tarefas.

Às cinco horas e trinta e cinco minutos toca o despertador. Desliga-o e levanta-se de uma assentada. Trata da sua higiene pessoal, que presumo passar por lavar a cara e os dentes porque toma banho antes de se deitar. Para além disso nunca sai da casa de banho enrolada numa toalha.

Sei porque às vezes deixa a cortina aberta e eu vejo, não quero, mas vejo.

Veste a roupa que preparou no dia anterior às vinte e uma horas e trinta e cinco minutos. Precisamente duas horas após ter-se sentado para jantar na sua sala imaculadamente arranjada. Com um naprom que posso apenas adivinhar sem nódoas. Janta as porções adequadas. Verduras, arroz, carne ou peixe. Acompanha sempre com chá quente sem açúcar. Suspeito que de camomila. Ajuda a descansar.

A Dona Carmo sai de casa arranjada e perfumada. Com os seus saltos nem muito altos nem muito rasos. Vai comprar as mercearias frescas e o pão do dia. A cesta preenchida sempre na mesma medida. Saí de casa às nove horas da manhã. Conheço o bater da porta velha do prédio. Das que ainda são de ferro verdadeiro.

A Dona Carmo veste sempre cores claras e a condizer. Verdes claros, cremes ou rosa pastel. Encontra sempre a echarpe adequada. O seu colar de perolas sempre alinhado em torno do pescoço como se fizesse parte da própria pele.

Cumprimenta os vizinhos com a educação necessária. Não se alonga com conversas que não incluam o bem estar do prédio, não quer saber da vida das vizinhas e caso seja questionada tem algo ao lume para atender.

Nunca tem. Sei porque cozinha o almoço às 11 horas para estar na mesa às 12 horas. Todos os dias. Quando não come a horas perde a fome. Já vi. Um dia tocaram à porta para vender alguma coisa, tinha acabado de se sentar. Voltou à mesa para levantar toda a loiça. A comida para o lixo.

Nesse dia passou o resto das horas sentada no sofá com a televisão desligada.

A Dona Carmo faz-me companhia sem saber. Entretém as minhas horas.

 

A minha mãe senta-se todos os dias a olhar pela janela. Em frente um prédio devoluto. Parece acompanhar a vida de alguém que já lá viveu e hoje não está neste mundo.

A minha mãe sorri para a janela. Todos os dias acorda às 6 horas da manhã. Veste a sua roupa, a que deixa arranjada em cima da cama, sempre em cores pastel.

A minha mãe senta-se e vê uma vida fora da janela.

 

Esta é uma rubrica de contos. Cujo teor é totalmente ficcionado.

 

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