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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Atletas do dia a dia

Toca o despertador pouco antes das 6 da manhã. Já posto de propósito para essa hora. Assim permite clicar em “adiar” e pedir mentalmente à vida “só mais 5 minutos". O momento em que volto ao meu tempo de criança, à minha adolescência e pedia à mãe “só mais 5 minutos, vá lá…”

Levanto-me, um olho aberto e outro ainda a descansar. O cabelo numa desgraça. A cara marcada pela almofada.

Acendo a luz da cozinha que me ofusca como um holofote e está decidido “o dia começou”.

Arrumo a mala da marmita. Preparo o pequeno almoço. Lavo a cara e ponho o creme que promete que chego aos 40 sem rugas, numa leveza de pele que faz inveja a qualquer bebé. Visto-me. Com sorte já tenho a roupa escolhida de ontem.

Passeio os cães. Uma volta mais curta e a promessa de que ao final do dia brincamos mais tempo.

Subir todos os degraus que levam a minha casa.

Tinha sido mais fácil a descer. E agora já sinto a falta daquele pequeno almoço que ainda está por comer na mesa da cozinha.

O marido já está despachado e o pequeno ainda dorme.

“Amanhã trocamos”, diz-me. E trocamos mesmo. Que numa casa em que dois trabalham, dois dividem tarefas.

Comemos. Nós e os cães.

No intercomunicador ouvimos um espreguiçar.

“Acordou, vais lá tu? Tiro-te o café!”

Um vai buscar o pequeno à cama, o outro lida com a máquina de manipulo para um café em condições.

O pequeno acordou, é preciso aquecer leite, sentar com ele, dar-lhe um abraço e mil beijos, a dose de carinho possível numa manhã que já se sabe agitada e numa forma de estar que se impõe tranquila.

Tudo se resolve.

O pai aquece o leite enquanto bebe o café. Eu sento-me com aquele que acorda mais devagar que eu. Um abraço e os mimos que ficam em stock para um dia afastados.

Chega o leite. Que ainda hoje, com dois anos, bebe como se fosse um bebé. Sabe beber sozinho, só que sabe sempre melhor quando a mãe dá. E a mãe dá. Porque daí a pouco a mãe vai deixar o filho e vai respirar fundo, porque chegam as 10 horas de distância. Sem SPA's ou espreguiçadeiras. Mas com um dia de trabalho normal.

Leite bebido passamos aos dentes.

Dentes lavados passamos aos casados vestidos. O pequeno ainda de pijama, a vantagem de ficar nos avós. Vai quentinho e com tempo a avó muda de roupa.

É que no verão é uma coisa…mas no inverno doí!

Desce as escadas ainda há pouco subidas. Sento o bebé no carro. Pulo para o banco de trás. Aí vamos nós para a nossa maratona de hoje.

Primeira paragem, casa dos avós. Sobe escadas. Raio de gente que não sabe encontrar casas em prédios com elevador.

Deixo o pequeno. Mil beijos de despedida e um “até já” porque o “até logo” soa a muito tempo e o “até já" parece estar já ali.

Trânsito. Ver o trânsito e escolher a ponte.

Fazer o caminho para o trabalho e rezar para que não haja acidentes.

Chego ao trabalho mesmo a um fio da hora de entrada.

“Pelo menos não fico com tempo a compensar”.

Segue-se a manhã de trabalho. A hora de almoço dividida entre a marmita e as tarefas que facilitam o final do dia. Qualquer coisa para o jantar, qualquer coisa para o pequeno almoço do dia seguinte. O detergente que acabou.

Falta a tarde.

Toca para a saída e volta a estrada.

Chegados a casa.

Eu corro para casa. Vou passear os cães. Sobe escadas, desce escadas, sobe escadas. Fazer o jantar. Pôr a roupa a secar.

Chegam o pai e o pequeno.

Aquele abraço. O beijo da saudade e o perceber que “tás tão grande, filho”, mais o menos tão grande quanto estava de manhã.

Jantar. Dar jantar a quem se recusa. Jantar logo de seguida.

Arrumar a loiça e a cozinha.

Um arruma outro toma conta do pequeno.

Sentamo-nos no sofá 10 minutos e percebemos que está mais do que na hora de ir tomar banho.

Primeiro o pequeno.

Depois eu.

Depois o pai.

Passa das dez e meia e ainda quer pular na nossa cama.

“não pules na cama filho, dá cá a mão, senta, cais e magoas-te”

Todos de pijama. Deita-se no meio de nós enquanto viramos uma página num livro.

Adormece.

São onze e meia e eu penso “como é que eu vou conseguir fazer exercício durante a semana?”

Depois percebo que já faço. Que sou uma atleta de todos os dias. Que não tenho quem me faça as tarefas para me entreter com coisas lúdicas.

“Aqui há tempos li uma reportagem que dizia que as donas de casa de antigamente estavam mais em forma que nós porque faziam muito exercício na lida de casa.”

Digo eu.

Olho para o lado e estava a falar para mim. Já adormeceram os dois.

“Ajuda-me a pô-lo na cama”.

Já pesa bastante e as minhas costas estão assim-assim.

O pai vai pô-lo na cama. Eu tapo. Dou-lhe um beijo e vou-me deitar.

 

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