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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

A crónica do silêncio

Pelo titulo seria de esperar que as linhas que se seguem estivessem em branco. Uma forma de silêncio escrito, a folha intacta, sem tinta nem caracteres, sem palavras nem jogos. Isenta de prolepses e analepses. Despida de qualquer narrativa.

Afinal de contas há conversas em que o melhor discurso é o que assenta no silêncio. Nas palavras que não se dizem. Nas letras que não se conjugam, nos fonemas que não se proferem. Porque ferem, mesmo que a intenção seja contrária.

Martirizo-me quando não percebo o silêncio necessário. Páro e amuo comigo mesma. Porque não raciocinei, porque não pensei, porque não antevi a idiotice que saiu em sopro da minha boca rota. Penitencio-me. Não quero causar mágoa mas origino o desconforto. E eu detesto desconforto.

O silêncio é hoje um momento raro. São capacidades em vias de extinção, aquelas que permitem saber quando estar em silêncio. O sofrimento é excessivamente comemorado. Sim, comemorado, porque não há sofrimento sem observação. Não se sofre sem antes avisar “olha, estou a sofrer!”. Quem sofre de um sofrimento sentido recolhe-se, encolhe o corpo na posição fetal e espera que não o encontrem. Agradece o abraço de quem sabe que o precisa, mas finge que não sente a dor. Porque a dor de sentir o sofrimento é forte demais.

Então recai o silêncio. A inexistência de palavras soltas, belas, complexas ou simples. Apenas a dor.

Gosto do silêncio porque diz mais que as palavras. Mas lá está, que era da vida sem as palavras, aquelas que atiramos à direita e à esquerda sem pensar muito bem em quem vão acertar. Palavras que lançamos em voto de som, sem saber que embatem por vezes com mais força do que um carro em alta velocidade.

As melhores palavras revestem-se por vezes do mais profundo silêncio. São aquelas que não são ditas. São aquelas que as sabem dois corpos que se suportam num abraço.

Gostava de pensar bem antes de falar. De reconhecer o silêncio quando ele é necessário. De deixar de o quebrar por incomodo. Porque o silêncio incomoda, agita, acicata. E então falo por falar, com a razão abraçada à intenção, que é sempre a melhor, mas nem sempre chega a bom porto.

 

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