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Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Um quarto para as nove

Para entreter uns minutos do dia

Retratos da vida alheia #6

Duas mesas ao lado sentam-se dois ingleses. Claramente um casal. Provavelmente com pouco tempo de relação, tal não é o desconforto e desconhecimento das danças conjugais que refletem os anos de convívio. Ele arranjada para uma noite de arromba. Ele minimamente polido para a acompanhar. Ela agarrada à sua pequena pochete da Michael Kors, certamente comprada a crédito ou com o ordenado de uma semana. Como se sabe lá para as terras da Rainha Isabel recebe-se à semana, nada de ordenado ao mês.

Ao lado um casal jovem com um pequeno que não tinha mais de ano e meio. A mãe insistia que comesse a sopa e o desgraçado insistia em fazer sons com a boca enquanto a deitava para fora. “Pão” dizia, e a mãe que “tens de comer a sopa”.

A inglesa mal se tinha sentado e já estava incomodada com a existência daquele ser nefasto de palmo e meio. Mania idiota de deixarem crianças pequenas em espaços de adultos. Sentados em restaurantes a berrar quando os crescidos querem beber um copo e causar boa impressão.

A mãe desistiu da sopa a atracou-se a com prato com verdes para enfeitar e uma dose valente de asas de frango fritas.

O inglês levantou-se para se servir do buffet. “I’ll come with you” disse a inglesa de vestido azul com cinto de brilhantes. Olhou em redor e viu a mãe da criatura pequena e birrenta, a sua roupa com borboto terá convencido a bifa de que era melhor servir-se da comida com a sua pequeno pochete ao ombro. Não fosse a outra levar-lhe a relíquia.

E lá foi ela, de malinha com corrente ao ombro, buffet afora.

Voltam com pouca comida para a mesa, mas bastante que beber. Duas imperiais para ele e uma garrafinha de rosé para a bifa. Olha de soslaio para a cria e vira um copo de uma assentada só.

Agora esqueceu-se da classe, pensei. Se me olhas para os miúdos de lado, que se besuntam de batatas fritas e ovos estrelados temos o caldo entornado, puta da bifa armada em emproada, penso para comigo.

E a bifa manda abaixo mais um copo. Porventura ela para se esquecer da pequenez dela. Quem sabe ela para se esquecer do teso que ele é que não a levou para um 5 estrelas, onde sejam banidas criaturas peçonhentas com menos de um metro.

Levantam-se de novo para ir ao buffet. Ajeita o vestido e ganha coragem para deixar a malinha de marca em cima de uma cadeira. Tapa-a com um guardanapo de pano. Afinal de contas assim a Maria borboto nem dará conta e jamais lhe irá ganfar a mala.

Pega da inglesa, penso para comigo.

A mãe da cria atraca-se às asinhas de frango mesmo com as mãos. Valente, gosto desta, assim é que é, agora comer franco com panasquices.

A inglesa volta e vira mais um copo de rosé. Pensará certamente que não apresentaram os talheres aqueles nativos primos de símios, tal não é o seu desconhecimento da evolução civilizacional.

Quando a Maria borboto volta com as sobremesas já a bifa inglesa lá não estava. Vai-se a ver e nem sequer chegou a dar conta que alguma vez se lhe sentaram ao lado dois bifes que se incomodaram com a sua existência,.

Ah a beleza da ignorância.

 

Fora de horas #84

Se escrevesse por apetecimento provavelmente escrevia a tempo inteiro. Deixava-me estar por casa, distraída e descontraidamente sentada num escritório repleto de livros, esperava que a vontade chegasse, que a ideia se iluminasse e então martelava os dedos no teclado. Se escrevesse por apetecimento garantia que o dia corria como me apetecia e só escrevia o que me apetecesse. Há dias em que apetecem coisas parvas, há dias em que me apetecem sentimentos, há dias em que apetecem histórias inventadas, aquelas em que porventura desempenho na minha cabeça o papel de um dos personagens e vivo por instantes uma vida oposta à minha. Umas vezes melhor que a que tenho, mais abastada, mais descasada, outras mais infeliz, alimentando assim o meu sentimento de que as coisas não merecem tantos queixumes.

Se escrevesse por apetecimento não fazia relatórios, não cumpria dias, não catalogava textos. Escrevia apenas. Mas a cabeça pede organização e essa organização diz que se tem de saber do que se escreve, estipulo dias para escrever aquilo a que chamo de crónicas e o que outras chamaram de nada. Outros dias escreve histórias a que dou o nome de contos. Alguns chamaram tinta perdida.

Hoje, fosse este um momento de cumprir com promessas interiores, teria publicado um conto. Ou uma história a que chamo de conto. Mas o filme de terror ainda está demasiado vivo, e as histórias que me assomam a mente envolvem chamas e famílias perdidas. Preferi não escrever. Preferi esperar que com o passar dos dias histórias mais felizes, de dias normais, me assaltem à mente.

 

Retratos da vida alheia #5

Descemos a rua em direção à praia. Nada como um dia de sol com o corpo estiraçado na areia para esquecer as maleitas dos dias. A criançada informada de que a areia fica junto da areia e a toalha da mãe se mantém intacta. Se o objetivo for conseguido até à hora de regresso talvez se encontrei algumas moedas para um gelado a cada um.

Fico para trás a ver toda a gente descer, a voltar um casal com um miúdo pequeno. Lembro-me dos meus assim, ainda bem pequenos e teimosos. A mãe dá-lhe a mão enquanto percorre o caminho em cima do pequeno muro que separa o relvado da calçada. A cria tropeça e a mãe cautelosa segura-o a tempo. A tempo de que o filho não se esbardalhe no chão. Tão bem o segurou a ele que mal foi capaz de segurar o peido que lhe saiu do traseiro. Não ri, são coisas que acontecem e fazem parte da natureza humana. Talvez excesso de bolos ao pequeno almoço, a guloseima das férias que evita nos dias comuns, ou diz evitar, que as pernas largas e moles não mostram que seja rijida com os seus hábitos.

Mas quem é com um filho pequeno?

Continua como se nada tivesse acontecido, afinal de contas não voltará a ver estas almas na vida. Ou voltará? Quais as probabilidades? Ou quem sabe alguém pensou que foi o pequeno. Toda a gente sabe como a criançada depois de algumas guloseimas a mais perde por vezes a noção da vergonha. E lá vem gás. Naturalmente, natural, mas gás.

Sigo a pensar como devem ser os dias da mãe daquele pequeno. Porventura desejosa por umas férias sem a criança a ditar as regras. Mas que boa mãe deixa os filhos ao cuidado de outros para se esparramar ao sol.

Os meus já lá vão em baixo. Pouco já querem saber se os sigo ou não. Desde que alguém apareça com a carteira para pagar o gelado, ficam satisfeitos. De resto querem areia e sol, mergulhos no mar. O mais pequeno o abraço da mãe antes de dormir, afinal de contas ainda é menino da sua mamã.

 

Fora de horas #83 - Uma tragédia e um filão para todos

Não há palavras que descrevam a infelicidade que o nosso país tem vivido nos últimos dias. Não é preciso descrever sentimentos, os números e as imagens bastam para todos sabermos que o que aconteceu nunca devia ter tido lugar. Podem haver culpados, pode haver mão da natureza, pode ter sido força divina. Pode ter sido tanta coisa que ninguém consegue confirmar. Mas nada disso muda o fim de mais de 60 vidas.

Depois há o filão, posts e posts, de condolências, de arrepio, de sentimentos, de culpas, de fotografias. Todos têm. Todos temos coisas a dizer sobre esta tragédia. Quem não tem, arranja. Afinal de contas não se passa um acontecimento trágico destes sem se deixar o seu bitaite à face da terra. Somam-se a estes as denominadas “reportagens” que de jornalismo têm pouco e de sensacionalismo têm muito. Uma mulher especada ao lado de corpos inocentes espalhados num chão que percorreram sem ver, em busca de uma salvação onde apenas havia morte.

Que mais há a relatar. Não é possível que se tenha alguma sensibilidade para com o tema? Parece que não. Porque toda a gente sente muito, mas toda a gente está longe que chegue, com família a salvo, toda a gente está afastado quando baste para achar muita coisa e apoiar com bitaites soltos. Posts e reposts no facebook, culpados e chamas, chamas e culpados. O ocasional relembrar do numero de inocentes perdidos, como se o numero já não fosse sobejamente conhecido por todos nós, em Portugal e além fronteiras.

Não coloco no mesmo saco o jornalismo sério. Não coloco na mesma bitola quem partilha informações para ajudar. Mas coloco no mesmo saco do “olha para mim que sinto tanto” o ridículo de quem vai ao facebook colocar uma banda preta de “luto” em cima de uma fotografia sensual, de uma fotografia de alegria, com sorrisos rasgados e espalhafato. É o deixa cá mostrar que também estou muito sentida/o, logo depois de pôr um emoji com lágrimas no post do meu amigo e seguir à minha vida fumando o seu cigarrinho.

É uma tragédia, seguida de um filão que todos aproveitam. Até eu, neste momento em que escrevo sobre o que me passa o dia a aparecer à frente.

Se senti a tragédia? Senti. Especialmente com a história da criança. Sofri a imaginar o que poderá sentir quem sai de um carro numa estrada em que passa todos os dias, para descobrir que a vida vai acabar porque apesar de estar num espaço livre está encurralado pelo inferno. Depois desliguei a televisão, beijei os meus filhos, egoistamente agradeci a Deus por tê-los comigo, mudei o canal e deixei que vissem os desenhos animados. Afinal de contas a vida deles pode continuar inocente.

 

(e sim, contribui, só não achei necessário falar sobre isso)

 

 

Não há maior pacóvio...

...que o novo rico. Ou o rico alimentado a mensalidades de vida. Ou quem sabe a classe média que, entre um visa e outro, somados a ordenados mais simpáticos do que aqueles que os progenitores conseguiram angariar, vão fazendo a sua vida de ricos, sempre de favas contadas e agradecimentos a Deus Nosso Senhor, para que o pneu do BMW não rebente, afinal de contas o que sobra do visa depois das compras na GUESS mal dá para almoçar fora marisco os quatro dias que passam no Algarve.

O rico que é rico, ou o rico de berço, gasta dinheiro como se de água se tratasse, sabe que esfregar na cara dos outros o que tem e o que faz denota a profunda necessidade que lhe vejam a carteira, em detrimento do puro prazer sentido pelo simples ato.

O pacóvio profere vezes sem conta a frase que abomino "sabes que não faço por menos", subestimando o seu interlocutor ao estado mental que possuía momentos antes de uma qualquer tomada de decisão.

Por regra a pacóvio canta de galo perto dos que considera menos abonados ou, pura e simplesmente, ainda não expostos à realidade com a qual contactou.

Nesta semana agraciada com dois feriados, tive a oportunidade - no meu gozo de cada um destes belos dias - de contactar com uma espécie desta natureza. Fico sempre com a sensação de que estou em plena selva amazónica e que uma qualquer ave rara insiste em berrar ao fundo das árvores enquanto tento ler o meu livro. Como se já não bastassem as crias "ó mãe isto, ó mãe aquilo". Rezo para que uma anaconda coma a ave rara e se instale o silencio possível, mas Nosso Senhor não me atende e a garça selvagem continua.

"Fique com a boia" gritava para um senhor agachado com a filha pequena. "Digo-lhe, fique com a boia! Sabe, comprei no Brasil, já foi a Angola..." e pelo meio sei que passou por Cabo Verde. Claro que para dar a boia explicou que costuma deixar as crias com amas porque gosta de ir jantar descansada e desenrolou todos os países que entretanto visitou. Uma boia verdadeiramente poliglota, pensei. Muito me admira que não tenha levado a boia aos Himalaias, falta de oportunidade, certamente.

Atracado ao corpo um vestido de trapo mal enjorcado, o marido com ar pouco lavado e as crias corriam nuas por ali.

Uma pessoa a pensar, com tanto areal, tinha de calhar nestes grãos de areia. 

Depressa me lembrei da outra que me diz sempre com uma palmada no ombro e um piscar de olho "olha para mim, sabes como sou, não faço a coisa por menos". Claro que não. 

Nunca com menos falta de classe, nunca com menos idiotice. Ah, os pacóvios, se não fossem eles que mais escreveria eu, de que seria o mundo, um espaço tão mais monótono.

 

Retratos da vida alheia #4

O areal estava de tal maneira preenchido que se me arrepiou toda a pele. Um quadrado dispensado a meio metro dos caixotes de lixo. Teve de ser. Ao lado estendia-se uma moça que transbordava da toalha. Um biquíni cujo pano se afundava na formosura de sua proprietária. Uma criança passa e deita-lhe areia para cima. A mãe atrapalhada pede desculpa, afinal de contas a criança não percebe que o areal não é o quintal lá de casa. A mocinha larga aceita a desculpa e diz que não faz mal. Vejo-a mais magra ao som daquela simpatia. Tudo para ter vontade de a enterrar até ao pescoço bem perto da água 5 minutos depois. Mais ou menos o tempo que demorei a perceber de onde vinha o fumo a tabaco que me inundava as narinas.

Ao fundo um gordo reclamava com o homem das cabanas. Não sei ao certo do que se teria tratado, mas pelos vistos o outro achava-se mesmo esperto. Continuou um tal alvoroço que enquanto existiu gordo na praia não se ouvia outra voz. Passeava-se de lado para lado, com a sua barriga imensa, a sua voz grossa irritante e a não menos estonteante sunga azul escura.

Não há nada que me incomode mais na praia que homens de sunga. Detesto. Pior ainda quando o é um tipo para lá de anafado com a barriga farta a recair sobre a pobre pedaço de pano.

Pouco depois foi-se embora. Como o relâmpago que incomoda mas depois limpa.

Já a mocinha larga lá se manteve mais tempo, o suficiente para mais 2 ou 3 cigarros. A mãe do miúdo incomodada com o fumo em cima do puto, mas que havia de reclamar depois da cria ter mandado 3 grãos de areia que se perderam no lombo da moça que se desfez em simpatias?

 

Retratos de vida alheia #3

Os pratos comportam comida que chegue para alimentar uma aldeia com fome. Não se vê a cor da loiça porque está coberta por uma mescla de alimentos que em nada condizem. Uma vontade de deglutir todos os elementos proibidos à conta do fato de banho comprado dois números abaixo.

Eles trazem pão com manteiga e fruta. Uma sopa ao almoço antes do peixe grelhado. Afinal de contas têm de manter a barriga lisa depois dos 4 dias que passam no ginásio. Sempre têm na ideia as miúdas nórdicas que lhes passam pela frente, tão diferentes das pernas carregadas de celulite das noivas. Aquelas cujas neuras aturam há mais de 3 semanas, tudo à conta do biquíni 2 tamanhos abaixo. Cabrão do biquíni que havia de lhes caber como cabe na moça da fotografia. E elas comeram toda a alface que precisavam. Encolherem-se numa manhã depois de dois dias a sopas e água. A barriga lisa da fome.

Hoje, enchem o prato com os bolos e os ovos escalfados. O pão com manteiga e os croissants. À praia chegam com o ventre dilatado, as tiras do biquíni dois números abaixo cravadas na carne. Pavoneiam-se com a imagem do provador, aquela que estava toldada pela fome, tal como a barriga estava lisa de tão vazia.

E eles lá andam. Afinal de contas uma tem de ser para casar, para procriar, para cuidar da velhice. Para que possam ir de férias com a família em velhos. Para que tenham netos. As outras para gozar nos tempos livres, nem que seja na imaginação. Afinal de contas também os galanteiam com os olhos.

As doidas das nórdicas.

 

Retratos da vida alheia #2

As três irmãs andam quasenuma corrente de braços dados. Protegem os seus homens espadaudos dos olhares das moças que passam. Como se elas os galanteassem a eles e não o inverso. Eles baixam a cabeça e olham de esguelha por cima do ombro. Regalam a vista com os cotpos bem torneados e jovens das suecas. No bar elas caminham altivas, de costas quentes, que se alguém lhes respondem ou desagrada se juntam e acabam-lhe com a raça. Incapazes de compreender a sua profunda ignorância, a que está cega pela arrogância de se pensaram melhores do que são. Quem sabe no fundo animaizinhos assustados, que alguém lhes diga com todas as letras as tristes figuras a que se sujeitam. Assim olham de cima, tentam impor o medo a quem não o tem.

 

Conto #15

Sentei-me no banco de pendura do carro. Recostei-me e fechei os olhos. As lágrimas rolavam pelo meu rosto.

- Queres falar?

Sentado a meu lado tentava segurar na minha mão. A dor de ver quem se ama a sofrer sem saber o que fazer.

Continuei recostada no banco do carro, os olhos fechados e a escassas de palavras. Eu, que falo pelos cotovelos, sem saber que palavras usar. Um sentimento desesperante, quase tão frustrante quanto os meus dias.

Choro e sinto o carro a trabalhar. Está a estaciona-lo virado para a parede, para que pudesse ter alguma privacidade na minha dor.

- Já não sei nada. Já não sei o que mais fazer da minha vida. Sinto-me frustrada. Sempre frustrada. Numa agonia constante que me faz ficar mal disposta. As obrigações do dia a dia mais aquelas que me imponho. Sinto-me cansada. Tão cansada. Já não dou conta do recado.

 

A semana tinha começado mal. Alguns anos atrás tinha aceite ser fiadora de um contrato de financiamento de um familiar. A vida desse familiar ficou do avesso e a divida dele ficou comigo. Já andava a carregar com esse fardo há mais de um ano e nesse dia fiquei a saber que ainda ia durar mais 3 anos. Tinha projetos para a minha vida, mudar de casa, um colégio melhor para a miúda. A minha vida tranquila de comprar mais uns sapatos se me apetecesse.

Tudo por água abaixo. O ordenado não ia dar para tudo.

Os dias de trabalho sempre iguais numa esquizofrenia constante. Sem mãos a medir. As noites com falta de descanso. As semanas a passar carregadas de dias repletos de obrigações. A cabeça a ceder. A voltar a ceder como já tinha feito um ano antes. O ano em que comecei a ter ataques de pânico e de ansiedade. Em que os meus medos começaram a mandar mais na minha vida que eu.

 

Sentada naquele banco do carro vi a minha vida estagnada. Sempre iguais.

- Eu só quero uma solução. Uma janela para uma coisa diferente ou a capacidade de aceitar de forma tranquila que a vida é mesmo assim. Uma das duas, só quero uma.

Chorei. Chorei muito. Não tinha conseguido almoçar, a comida dava-me vómitos e a minha cabeça dizia-me que me estava a dar qualquer coisa, não fazia sentido estar enjoada assim, do nada.

Neste dia. Hoje, decidi que a vida tem de ser diferente. Que tem de ser vivida com mais calma, com a serenidade possível dos dias frenéticos que tenho.

 

Decido fazer uma lista das tarefas que temos a nosso cargo.

 

Levantar às 06.

Vestir.

Preparar malas de refeição para o dia

Preparar pequeno almoço

Tomar pequeno almoço

Lavar dentes

Fazer necessidade fisiológicas

Preparar as crianças 

Dar de comer à tartaruga

Pôr comer à gata

Limpar a casa da gata (caso contrário mia todo o dia)

Sair a bufar com no mínimo 1 mochila, 1 saca de almoço e a minha mala. Há dias em que descemos com estes 3 sacos, mais dois de desporto para ir ao ginásio (apesar de depois não irmos)

Meter tudo no carro e ir deixar a menina ao colégio

Ver o transito e seguir para o trabalho.

Seguir para o trabalho

Sentar a trabalhar.

Toca para a hora de almoço e engolimos o que vem na marmita, vamos comprar coisas que estão sempre em falta em casa: fruta, papas, meias, iogurtes, leite, enfim tudo o que nos falta na lista porque quando a fazemos – e fazemos – temos a cabeça tão cansada que não damos conta de tudo. E insistimos fazer de cabeça. Invariavelmente compramos coisas a mais e outras a menos.

Voltar a sentar a trabalhar.

Sair a horas (tentar...porque há sempre mais um relatório para entregar)

Metermo-nos no transito.

Já de noite chegamos a casa.

Um adianta o jantar e os almoços do dia seguinte.

O outro trata da descendência.

Jantamos.

Todos para a cama.

Olha-se para o relógio.

Sentamo-nos um de cada lado a ler o prometido capitulo de um livro.

Para desligar com o dia.

Nós deitamo-nos a pedir que amanhã seja dia outra vez. Agradecemos o que temos e pedimos que se durma a noite seguida.

Às 4:15 acorda, quer leite e o aconchego da cama dos pais.

E o dia começa outra vez.

 

Esta é uma rubrica de contos. Cujo teor é totalmente ficcionado.